











Marcos Rey






GARRA DE CAMPEO









3 edio









TEXTO
Editor
Fernando Paixo
Assistente editorial
Marta de Melo e Souza
Preparao dos originais
Jos Roberto Miney
Suplemento de trabalho
Cndida Beatriz V. Gancho

ARTE
Editor
Ary A. Normanha
Ilustraes
                Marcos de SantAnna
Arte-final
Antonio U. Domiencio
Coordenao de composio
                   Nede Hiromi Toyote











        ISBN 85 08 029 75 6





















1999

Todos os direitos reservados pela Editora tica S. A.
Rua Baro Iguape, 11O  Tel.: (PABX) 278-9322
Caixa ostal 8 656  End. Telegrfico Bomlivro  So Paulo

Marcos Rey:
presena marcante
nos quatro cantos
do pas


Irreverente, cheio de bom humor e otimismo em relao  vida, Marcos Rey  dos autores mais populares junto aos estudantes de 1 grau, que se identificam com a esprito
jovem de suas histrias modernas, cuja trama e linguagem acompanham o ritmo veloz dos dias de hoje.
Para se ter uma idia do espetacular sucesso desse autor, seus livros juvenis, todos publicados pela srie Vaga-lume da Editora tica, so amplamente adotados pelas
escolas de todos os Estados do pas.
Esse enorme xito pode ser explicado pelo seu talento verstil de escritor e uma incrvel disposio para o trabalho. Autor de vrios romances e contos para adultos,
Marcos Rey  tambm um homem de publicidade e televiso. (Veja no final desta edio a lista completa das obras de Marcos Rey.) Foi redator de episdios do Sitio
do Pica-pau Amarelo e do programa Vila Ssamo e adaptador das clssicos O prncipe e o mendigo, de Mark Twain e A moreninha, de Joaquim Manuel de Maceda, duas telenovelas
muito assistidas.
Esse paulistano, cuja cidade natal  fonte de inspirao para a maioria de seus romances urbanos, j recebeu vrios prmios literrios, teve livros transformados
em peas de teatro, filmes e programas de TV, como a aplaudida minissrie Memrias de um gigol. Conta tambm com textos seus traduzidos para outras lnguas 
espanhol, italiano, ingls, alemo, finlands e japons.
Para completar, aps uma longa carreira literria, Marcos Rey agora faz parte da Academia Paulista de Letras, o que significa o reconhecimento da importncia de
sua obra. E apesar de ter se tornado um imortal, continua mais vivo e humano do que nunca, tramando novas e emocionantes aventuras para jovens e adultos.



































Um agradecimento duplo para
Carlos Caldas e Roberto F. Agresti
Jornalistas especializados que explicaram a mim (a Felipe) tudo o que esta histria relata  organizao, manhas a macetes  sobre motocross.











Sampa City,
aqui estou eu!


1.

U
ltrapassou uma Kombi branca cheia de gente, malas e alegria, devia ser uma famlia rumo s frias na praia; nem precisou acelerar para que um fusco queimando leo,
dirigido por um homem idoso de bon, ficasse na rabeira; uma guinada  direita e ps a perder de vista um caminho verde, pesado, que roncava no asfalto; com nibus
todo cuidado  pouco, quase se azarara uma vez, mas de olho vivo, concentrado, passou por dois. No costumava abusar nas rodovias, alis fazia a primeira viagem
longa, uns duzentos quilmetros, emoo que somada  manh, toda azul, e ao vento, uma delcia, convidava-o a imprimir maior velocidade  sua moto.
Mas nunca faltam malucos dispostos a competir. Em certo trecho da estrada ia lento a pensar na me e na irm casada que ficaram no interior e imaginando como seria
sua vida em So Paulo, para onde se mudava, quando um cuca-fresca, sobre uma moto muito mais potente que a sua, fez-lhe um tchau com a mo, desses que humilham,
e arrancou cem metros  sua frente.
Felipe, chamava-se assim, sabia que sua mquina no era l muito veloz, razo de sua especialidade em curvas e obstculos, porm acelerou com apetite. Surpresa!
Num instante emparelhava-se com a outra moto, uma 350, que lhe pareceu preparada para algum tipo de competio. Ele prprio, o piloto, mais que simples motoqueiro,
tinha cara e jeito de quem participava de corridas.
Vendo a aproximao, o moo da 350 fez outro movimento com a mo  Siga-me se tem peito!  e distanciou-se novamente. Felipe no abandonou o preo, quis mais.
Alguns quilmetros alm, voltava a colocar-se pouco atrs do corredor, mas como se quisesse apenas acompanh-lo. Os artistas da velocidade nunca se precipitam, como
aprendera nas provas assistidas no interior, mas tambm jamais perdem oportunidade para ultrapassar. E l estava uma:  frente, um congestionamento e algumas curvas
fechadas. Firmou o capacete na cabea, proteo  proteo, falou qualquer coisa com Deus, meteu-se entre alguns carros, tornou a emparelhar com a 350, soltou a
mo para o tchau, passou-a, e mergulhou numa seqncia de curvas em declive, no que era pra l de bom.
Felipe acelerou at o limite da capacidade da mquina, rindo de boca toda, mas no era nenhum bobo. Sabia que o outro, com aquela 350, logo o alcanaria no primeiro
reto. Bancou o esperto: parou e escondeu-se num posto de gasolina. Em seguida, sem v-lo, o motoqueiro da outra moto surgia na maior doideira, todo curvado, no
entendendo como uma 180 pudera avanar tanto  sua frente.
Ele vai correr atrs de nada at Sampa City, pensou Felipe, reavivando o sorriso que esquecera na estrada.  at capaz de vender sua bela 350 por uma mixaria,
s de raiva.
        Gasolina?  perguntou o frentista.
        No, chapa, s queria um copo de gua.


2.

Clvis, tio de Felipe, estava com aquela cara larga e simptica  porta principal do seu estabelecimento. Era um desses tipos to legais que at os estranhos, quando
passavam por ele, diziam bom-dia. Ningum o surpreendia de mau humor, azedo, mesmo se casse tempestade ou se a freguesia desaparecesse por uma semana. Uma vez,
j com quarenta, pegou caxumba  imiaginem! , mas nem assim se queixou ou guardou sua cordialidade na gaveta.
Chegando em sua moto depois do mundo de estrada e do pega com a 350, Felipe viu a placa  distncia: BOX DOS MOTOQUEIROS, toda vermelhuda, com letras amarelas.
Sabia que o irmo de dona Glria (beijoca, mame) era do ramo, proprietrio de uma oficina de motos, mas no daquele tamanho!
        Eh, homem gordo, quer comprar minha motoca? Clvis berrou para o interior do estabelecimento:
 Lola, chegou o novo inquilino!  E foi aproximando-se do sobrinho ainda sentado na moto.  Vai me dizer que veio l dos confins dirigindo esse caco velho?
 Vim e deixei pra trs um chato que quis me esnobar com uma 350.


Clvis sabia tudo sobre motocas, no dava para acreditar.
 Nem a Lola vai engolir essa lorota, a no ser que o da 350 fosse xarope ou um velhinho apenas tomando ar.
 No, tio, o cara era moo e chegado no lance. Passou por mim zunindo como uma abelha e me deu tchau. Quando descuidou...
Lola apareceu  porta da oficina, loura, bonitona, uns dez anos mais jovem que o marido e desinibida, solta, como ele. Poucas vezes haviam se visto, ela e Felipe,
mas ficara bastante entusiasmada ao saber que o sobrinho estava de mudana para a capital.
 Seu quarto est prontinho!  informou Lola.  Espero que goste.
Felipe mandara suas roupas e pertences por uma transportadora.
 Meus trastes chegaram?
 Esto todos no quarto. Vamos entrar.
Tio Clvis e sua mulher moravam l mesmo; nos fundos havia um quintalzinho e mais outra construo, a casa do casal, com uma sala bem mobiliada, dois quartos e tudo
mais. O dono do estabelecimento no precisava apanhar conduo.
 Este  seu quarto  mostrou-lhe Lola.  Que acha?
 Demais!
 timo que tenha gostado. Espero que goste tambm da comida. Vou pr o almoo na mesa.
Se a viagem deu fome a Felipe, dobrou quando o cheirinho bom das panelas de tia Lola invadiu a sala. Sentiu que ia viver muito bem naquela casa, e que o homem gordo,
seu tio, seria um grande amigo. Quanto  Lola, era uma tia sob encomenda, dessas que  ver e gostar, e sobretudo uma cozinheira que no perdia para dona Glria,
como provavam aqueles incrveis bolinhos de bacalhau.
 Ento apostou corrida na estrada?
 Quiseram curtir uma comigo, mas quem riu por ltimo fui eu.
Clvis deu um conselho que distribua a todos os motoqueiros:
 Estradas e ruas no foram feitas para corridas. Quem gosta de velocidade que v s pistas.
 Completamente de acordo, tio  disse Felipe.  Mas o doido era o outro. Vou contar como aconteceu.
Quando Felipe concluiu sua histria, Clvis e Lola riram a valer, mas o rapaz ainda estava na fase de examinar o ambiente. Que trofus eram aqueles sobre os mveis?
Foi observ-los de perto, curiosamente.
 So meus  esclareceu Clvis.  No sabia que fui corredor de motos?
 Que havia ganho tantos trofus, no.
 Eu no era dos piores.
 Fui eu que o proibi de levar tombos  disse Lola. Quando casamos, obriguei-o a desistir.
 E o senhor obedeceu?  perguntou Felipe, interessado.
 Bem, eu estava engordando muito. Tambm com essa comida que ela faz...
Lola impedira que o marido corresse, mas ainda se orgulhava das faanhas esportivas dele.
 Mostre-lhe o lbum de recortes.
Clvis resistiu, modesto:
 Felipe no vai querer perder tempo. O passado j passou.
Lola apressou-se em pegar o lbum de recortes, que entregou ao sobrinho.
 V dar uma olhada em seu quarto. Esse gorducho foi at capa de revista. Muito famoso!
 Foi por causa do meu cartaz que ela se casou comigo  explicou Clvis, piscando um olho:  As garotas se apaixonam pelos campees.


3.

Felipe foi para o quarto e largou-se na cama com o volumoso lbum de recortes de jornais que contavam a histria de tio Clvis no motociclismo. Eram notcias, entrevistas,
reportagens, quase todas com fotos que mostravam o campeo, naturalmente magro, cruzando retas de chegada, tomando champanha pelo gargalo de enormes garrafas,
recebendo trofus, beijado por entusiasmadas admiradoras. At no exterior, Buenos Aires, correra e ganhara, o que uma capa de revista registrava. Folhear o lbum
era como assistir a um filme, cheio de cores e ao.
A porta abriu, era o tio.
 No imaginava que o senhor j teve essa bola toda  disse Felipe.
 Mas ningum lembra mais disso. Gosta de corridas de moto?
 L no interior nunca deixei de assistir.
 Sabe que tem o nome dum grande campeo? Felipe Carmona. Deram-lhe esse nome por sugesto minha. Seu pai concordou, com uma condio. Vai se chamar assim, mas
nada de tentar fazer dele um corredor, ouviu?
Felipe lembrou-se do pai, j falecido.
 Ele costumava dizer que a vida j  uma grande disputa. Hesitou muito, antes de me dar o primeiro par de patins.
Clvis sentou-se na beirada da cama.
 Era bom de patins?
 No dos mais velozes, mas sabia dar saltos. A turma gostava de ver. Depois veio a bicicleta. Era parado em subir morros, atravessar terrenos acidentados, descer
escadas e o diabo a quatro. E no me importava se chovesse ou fizesse sol.
 E como aprendeu a andar de moto?
 Nas motos dos amigos. Mame ficou com receio que me desinteressasse dos estudos. Para provar a ela que no, aquele ano tive boas notas em todas as matrias. Dona
Glria ficou to contente que me comprou essa 180 usada.
 E a partir da no recusou nenhum desafio, como esse da estrada.
 No, tio, comecei a fazer com a moto o que fazia com a bicicleta, atravessar terrenos baldios, saltar buracos, escalar morros. Acho mais emocionante do que correr
simplesmente.
Clvis levantou-se com uma cara sria, que Felipe ainda no conhecia.
 Vou lhe dar uma notcia chata. garoto.
 Qual?
 Voc no pode andar pela rua com a moto
 Por qu?
 No tem carta. Ainda no completou dezoito anos. Certo?
 Certo, mas... Na minha cidade nunca houve problema.
 Mas So Paulo no  uma cidadezinha de vinte mil habitantes. Alis, acho que teve muita sorte em no ser barrado pela Polcia Rodoviria. Podia ficar sem a mquina.
Felipe no pensara nem de leve nesse obstculo, que, pelo jeito, no dava para saltar.
 Mas, tio, no fico um dia sem dar um passeio...
 Pacincia.
Uma possibilidade:
 E tarde da noite? Apenas pelo quarteiro...
Clvis sacudiu a cabea:
 No. Pensa que no h policiamento noturno em So Paulo?
Angustiado, o garoto perguntou, levantando-se:
 Ento, o que fao?
Resposta rpida e aguda:
 Posso vender sua moto.
Felipe no esperava por essa.
 Vender? Nunca. Preferia vender um brao.
 Lamento, Felipe, lamento.
Felipe lamentava mais ainda:
 Nesse caso, o que me resta ... voltar para o interior.
Clvis foi at a porta. Por brincadeira, sugeriu outra sada:
 ... ou correr em pistas.  permitido aos menores de idade, com autorizao da famlia.


4.

Mais tarde, ao passar pelo quintal, Felipe viu sua 180, j guardada pelo tio. Aproximou-se, olhou-a e tocou-a como se fosse pea de museu. Quase chorou. Na oficina,
conheceu Tuta, mecnico do estabelecimento e grande amigo do casal, um homem magro, enfiado num macaco verde, cheio de ndoas de graxa, porm mesmo se usasse qualquer
roupa, at smoking, quem o visse logo diria: l vai um mecnico. Tinha a cara e o jeito da profisso.
  o melhor mecnico de motos da cidade  garantiu Clvis.  Principalmente de mquinas de competio.
Tuta tinha uma pergunta para Felipe:
 A motoca que seu Clvis levou para o quintal  sua?
 .
 Quer que eu d uma mexida nela? Poder render muito mais.
 Pra qu?  retrucou Felipe.  No vou andar mais com ela, sou menor.
Durante trs dias Felipe teve de se contentar com papos sobre marcas e cilindradas, assuntos inesgotveis naquela oficina, mas o que queria mesmo era dar umas bandas
pela cidade, testar sua habilidade no trnsito, matar saudade da moto. Certa tarde, aproveitando a ausncia do tio, pegou a 180, disse a Tuta que voltaria em um
minuto e ganhou a rua. A princpio, tudo bem, dirigindo sem problemas, na maciota, para no despertar atenes. Que diferena passear nas ruazinhas tranqilas de
sua cidade! Havia trnsito demais naquela avenida! Cansou-se logo e cruzou uma esquina  procura de vias mais desembaraadas. Deciso tomada num momento errado:
assim que se viu fora do movimento, percebeu que alguns guardas de trnsito, junto a uma viatura estacionada, olhavam para ele. Ser que mesmo usando esse capacete
notaram a minha idade?, admirou-se Felipe. A pergunta virou certeza, quando, pelo retrovisor, pde ver os guardas entrando no carro apressadamente. Iam faz-lo
parar, pedir documentos, tirar-lhe a moto. Com que cara ficaria diante do tio? Mal chegara e j dava trabalho. O senhor que trabalha com motos permite que um
menor de idade, sem carta, ande por a, se arriscando e arriscando a vida dos outros?, diriam os policiais. Acelerou, com a viatura atrs, os guardas apitando.
Que correria! Dobrou esquinas, subiu e desceu ruas em aclive e declive, circulou em torno de praas, perdeu-se em bairros que desconhecia, retornou por acaso quela
avenida movimentada, e sempre que se julgava livre, via o carro policial outra vez. Sua sorte foi passar entre dois nibus, quando ganhou distncia, mas em seguida
fez a besteira de entrar numa ruela ou vila sem sada, dessas que ainda existem, s pencas, na parte velha de So Paulo. Besteira, sim, porque l estava a incansvel
viatura  entrada do beco. Devem estar pensando que sou um delinqente juvenil, receou Felipe, com a moto parada, reconhecendo que estava cercado. Nisso, olhou
entre duas casas e percebeu que havia um espao vazio.

Dirigiu a moto at l. Entendeu: a vila situava-se numa regio alta da cidade, montanhosa, e o fundo comunicava-se com outro bairro atravs de uma escadaria de
uso pblico, muito ngreme e esburacada. No teve tempo para considerar se seria capaz ou no de desc-la com a moto. J descera outras, mas no como aquela, e em
tais circunstncias. Quando se lanou na proeza, ouviu a viatura brecar. Foi em frente, todo inclinado, tentando controlar a respirao nervosa e a velocidade
da mquina. Um garoto que subia as escadas carregando uma cesta cheia de laranjas quase o faz perder o equilbrio, mas foi s um instante. Na metade da escadaria,
j seguro, pde soltar mais o breque, certo de que no quebraria o pescoo.
Ao chegar  rua, ao plano, olhou para o alto e, vendo a vila l em cima, nem acreditou que pudera descer tantos degraus. Agora s lhe restava descobrir onde ficava
a oficina do tio. Ainda teve de rodar quase meia hora para chegar ao BOX DOS MOTOQUEIROS, e com que alivio! Deixou a moto no quintal, tomou um copo, no, dois,
de gua, e foi largar-se, suado, na cama.
Algum tempo depois a porta abria, o tio.
 Que cara  essa?  perguntou a Felipe.
 Tio, estou pensando em voltar. No sei se vou me acostumar aqui. Meu pai nunca se acostumou.
Clvis ficou um instante calado, sofrendo uma visvel decepo.
 Est certo, F. A vida  sua. Mas no v antes de domingo. Quero que assista a um espetculo. Ao menos levar uma bela lembrana para casa.


5.

Clvis tinha razo: aquilo era um espetculo, uma festa, uma sensao. J  distncia via-se um mundo de flmulas, dsticos e bandeirolas de cores, formatos e tamanhos
diversos. Um enorme zepelim pairava sobre o terreno, ostentando o nome e o famoso emblema de certa marca de refrigerantes. Havia tambm um som quente, espalhado
por alto-falantes estrategicamente dispostos, produzido por um conjunto de rock, heavy metal, o Satellite Five, escalado para animar a tarde.
Durante a viagem, no carro de tio Clvis, Felipe perguntara:
 Afinal, aonde estamos indo?
 s corridas  informou Lola, entusiasmada.  No perdemos uma.
 Corridas de qu?
 Corridas de moto  disse Tuta.  Seu tio no lhe falou?
 Quis que tudo fosse surpresa  revelou Clvis.  Conhece motocross?
 No  respondeu Felipe.  Que tal?
Tuta encarregou-se da resposta.
 Desde que assisti  primeira, me desinteressei pelas provas de velocidade. Ficaram montonas. Motocross exige mais habilidade, mais experincia, mais...
 Vocao  completou Clvis.   preciso nascer com algo mais para saltar um obstculo atrs de outro.
Felipe viu-se descendo a escadaria da vila, na moto, quando a viatura o cercou. Muitos teriam desistido. Ele foi em frente. Seria  tal vocao a que o tio se
referira?
 O senhor disputou corridas de motocross?
 No meu tempo ainda no havia motocross no Brasil. Mas se tivesse sua idade... Voc vai ver, Felipe, quantas gatinhas andam rondando pelas pistas!
Clvis encostou o carro entre centenas de outros, e tambm de motos, num disputado estacionamento. L estava o zepelim, lindo, boiando sobre a pista e as arquibancadas.
Embaixo, o que logo chamava a ateno era o grande nmero de barracas coloridas, de talhe elegante, onde vendiam refrigerantes, sanduches, tortas, doces e adesivos
com os logotipos das marcas que disputavam os campeonatos de motocross.
Felipe, encantado com tudo, no quis ir logo para as arquibancadas, preferindo dar uma olhada na pista e nos boxes, onde pilotos e mecnicos, curvados sobre as mquinas
inscritas, ultimavam os preparativos da corrida.
 O que est achando?  perguntou Clvis.
 Chocante  respondeu Felipe, olhando um grupo de garotas uniformizadas com as cores publicitrias do refrigerante. Todas bonitas, escolhidas a dedo.  Estou sentindo
uma coisa no estmago.
 Vamos assistir a uma corrida para estreantes e novatos  disse Clvis.  Estreante no quer dizer que corre pela primeira vez. At a quinta corrida so considerados
assim.
 Corre algum cobra, hoje?
 H um tal de Sandro, que se vencer hoje, fatura o campeonato. Agora vamos para as arquibancadas. Joyce quer conhecer voc.
 Que Joyce, tio?
 A mais bonita fanzoca do motocross. Mas no se entusiasme, t?
Entre Lola e Tuta, sentados, Felipe viu uma jovem, toda de azul, que parecia ter sido contratada para decorar o ambiente. Gata, gatssima, gatrrima. Perto dela
ficou embaraado e sem voz at para o cumprimento.
Lola sempre notava tudo:
 Que houve, F? Est se sentindo mal? Joy no morde.
 Eu tambm estou meio zonza  disse Joyce.  E um fofo, como vocs descreveram.
Tuta recuou para Felipe sentar-se ao lado de Joyce. Mas qual devia ser o papo?
 Vem sempre aqui?  arriscou ele.
 Nesta e noutras pistas. Est no sangue. Meu pai tambm corria, nos tempos do Clovo.
 Acho que deve ser um barato!
 Pena que vai voltar para o interior  lamentou Joyce.  Lola me disse. Voc ficou bronqueado por no poder rodar com sua mquina, no foi?
 Parece que me amarraram as pernas.
 Ento por que no corre?  sugeriu Joyce, como se estivesse fixando sobre a mesa o ovo de Colombo.  Entre nessa, vai dar p.
Puxa, como  bonita!, admirou-se Felipe, receando que o ponto de exclamao se estampasse em seu rosto. Mas o que ela dissera? Por que no corria?
Pelos alto-falantes comearam a escorregar, lentos, os acordes do Bolero de Ravel.
 Dizem que essa msica aumenta a ansiedade, cria atmosfera  explicou Joyce.  Durante a corrida, os rocks voltam.
As motos, emparelhadas na pista de terra, visvel das arquibancadas em toda sua extenso, aguardavam a liberao do starting-gate  mecanismo que marca o ponto de
partida, semelhante ao usado nas corridas de cavalo  para dar incio  prova. Seriam duas baterias, de vinte voltas cada, no mnimo vinte minutos alucinados de
percurso sobre obstculos naturais: morros, morrinhos, morres, alguns pequenos, mas consecutivos (costelas-de-vaca), buracos e perigosos buraes (king-kongs),
charcos (havia chovido na vspera), alm de uma seqncia de curvas em aclive e declive, todas enlameadas e derrapantes.
Os motores explodiram fazendo um barulho de ferir os ouvidos e a corrida comeou mal para alguns pilotos, que logo nos primeiros metros chocaram-se com outros, desequilibrando-se
e caindo, em prejuzo dos que vinham atrs, alguns sem tempo para desviar, enquanto outros ganhavam a dianteira j na disputa acirrada das melhores colocaes. Felipe
sentiu a vibrao do espetculo, disposto a no perder um lance, mas arriscou um olhar lateral para Joyce, que, conhecendo os pilotos, torcia, emitindo sons e palavras
que se misturavam ao alarido das arquibancadas. Teria ela um preferido?
Aqui habilidade  tudo, pensou Felipe, lembrando de suas corridas pelas matas e montanhas no interior. Subitamente um Oh! geral: o piloto que liderava a prova,
ao tentar saltar um king-kong, esborrachara-se. Mas o novo lder no foi longe: caiu tambm.
No intervalo entre as baterias, Felipe e Joyce foram esticar as pernas e tomar refrigerantes. Todos olham para ela, observou o rapaz, encabulado. Como se fosse
uma princesa...
 Marcou o dia da volta?  ela quis saber.
 Se marquei? Acho que no vou voltar j. Talvez nem volte.
Joyce sorriu, era o que queria ouvir.
 E a moto?
 Vou tentar esquecer.
A princesa apertou o brao de Felipe.
 Ento podemos ir ao Vago.  a melhor danceteria de Sampa. Voc vai ferver. Mas vamos sentar. Est comeando a segunda bateria.
Depois de algumas voltas, Joyce comentou, vibrando:
 Sandro j est na ponta, no perde mais. O Rato  uma fera.
 O nmero 10 vai pass-lo.
 No passa  garantiu Joyce.  Esta ele no perde mais. O campeonato  dele.  Estava empolgada,
E era mesmo: Sandro, o Rato, fechou a corrida na frente. Em seguida dirigiu-se ao pdio, juntamente com o segundo e terceiro colocados, onde recebeu um trofu, garrafo
de champanha e aplausos de todo o pblico. Felipe via Joyce aplaudi-lo, mas nem se movia. J cime?
 O que achou do Sandro?  perguntou Clvis ao sobrinho.
 No  dessas coisas  respondeu Fellpe.  Conheo ele.
 Conhece?
  o maluco que tentou me ultrapassar na estrada.


6.

Felipe ao telefone:
 Sim, mame, estou me dando muito bem aqui. Tio Clvis e tia Lola so uns camarades. E tem um cursinho pr-vestibular aqui perto. Na ocasio  s me matricular.
Lola, que ouvira a conversa, estava feliz.
 Ento vai ficar?
 S no fico se me mandarem embora.
 Mesmo sem poder curtir sua moto?
Felipe no pensava na moto naquele momento: marcara encontro com Joyce no Vago. Foi fazer hora na oficina, onde Tuta entregava a um fregues a moto que acabara de
consertar.
  verdade aquela histria da estrada?  perguntou o mecanico.  Deixou mesmo o Rato pra trs?
 Acha que foi uma grande proeza?
 Como eu gostaria de ver a cara dele! Gozado por um simples motoqueiro como voc...
Felipe no gostou do ltimo comentrio, simples motoqueiro, mas era ele e no o Rato que se encontraria  noite com Joyce no Vago.


7.

Felpe chegou cedo e ficou  porta da danceteria, vendo a moada entrar no Vago aos pares, aos grupos, aos bandos, atraidos pela msica que j tocava l dentro.
Cinco minutos depois, como Joyce no aparecesse, comeou a ficar apavorado. Da por diante cada segundo doa, cada minuto pesava. Ao completar um quarto de hora
de espera ficou desarvorado. Foi at a esquina, voltou, foi e voltou outra vez e j dava a noite por perdida quando lhe bateram no ombro: Joyce, sorrindo.
 Demorei muito?
 No  respondeu Felipe numa alegria com impacto de choque eltrico.
O Vago estava cheio, numa de suas grandes noites, esbanjando um visual de luzes circulantes, coloridas, como se no bastassem as cores berrantes das roupas da
garotada, e com aquele palco tomado por uma parafernlia eletrnica, instrumentos, caixas e fios, usados por conjuntos musicais que se sucediam. Felipe, deslumbrado,
lembrou que em sua cidade os sales de baile eram comuns, apenas paredes nuas e mesas, enquanto aquele era um cenrio, todo decorado, imitando um vago de verdade,
cujas luzes davam a idia ntida de um trem em movimento.
 Sabe danar?  perguntou Joyce, j com a mesma alegria esfuziante do cross.
Felipe sabia e sabia bem: aprendera com sua irm, campe de concursos de rock, quando solteira.
        Vamos ns.
Logo nos primeiros instantes, Felipe, todo solto, foi mostrando do que era capaz, o que podia fazer com as pernas, corpo e braos, em constante desafio  lei da
gravidade. Joyce surpreendeu-se e teve de dar tudo, caprichar, inventar, para manter-se  altura do inesperado danarino. No precisou passar muito tempo para que
muitos, observando a dupla, at parassem de danar. Joyce at se desconhecia: danava com uma intensidade, uma paixo, que jamais sentira. O que era aquilo, essa
perfeita coordenao de movimentos? O estmulo de danar com um parceiro gil ou mais  o comeo de um novo amor?
Quando pararam, aplausos. Um casal aproximou-se de Joyce para que ela lhe apresentasse Felipe. No bar do Vago, doidos por um refrigerante, notaram que eram olhados
curiosamente.
 Viu que sucesso voc fez?!  exclamou Joyce.  Danava muito rock em sua terrinha?
        L se dana tanto quanto aqui, mas no em sales to incrementados.
        Voc tem aquele pique! No foi fcil acompanh-lo.
        Hoje me excedi, graas a voc, Joy.
        Por que graas a mim?
        Ora, voc  um tufo! Uma contorcionista!
Um segundo e outra pergunta para embaraar o interiorano.
        S por isso?
No, tambm e principalmente porque estou gostando de voc. Desde que a vi no cross. Mas Felipe no respondeu assim.
        Acho que s por isso...
O resto da noite foi de muitos refrigerantes, sanduches e naturalmente de novas exibies no salo, algumas no  distncia, mas juntinhos, de olhos nos olhos.
Est bom demais, pensava Felipe. Espero que nada atrapalhe.


Num momento, antes de sarem, Joyce foi para o toalete e Felipe recostou-se no bar. Ento um rapaz mais alto que ele, e um pouco mais velho, foi chegando.
 Parece que conheo voc  disse ele.
 Conhece de onde?  perguntou Felipe. Mas logo tambm o reconheceu.
 Voc no  o cara que quis me esnobar na estrada?
Claro, era o Rato.
 Lembro de ter outro dia deixado pra trs um motoqueiro numa 350. Ah, era voc? Qual  a bronca? Apenas fui  forra.
 Voc deve ter se escondido em algum desvio.
 Engano. S aliviei a mo na cidade. Por que no me ultrapassou? Faltou gasolina ou tem medo de velocidade?
Sandro no gostou das palavras e do jeito de Felipe.
 Sou campeo de cross  disse ele, crescendo.  No te passei porque se escondeu em algum lugar.
Felipe no amoleceu:
 J acabei com a panca de outros campees  rebateu no mesmo tempo em que jogava algum dinheiro sobre o balco, afastando-se.
Joyce, que vira Felipe e Sandro juntos, perguntou:
 Estava conversando com o Rato?
 Antes me diga por que o chamam de Rato?
 Porque ningum o alcana.
 J o alcanaram uma vez  disse Felipe, e contou sua aventura na estrada, excluindo, lgico, o lance do posto de gasolina.
Joyce ouviu no maior entusiasmo.
 Se voc pilota to bem como dana... Faa uma experincia. Tem seu tio e o Tuta para orient-lo. Dois cobres.
Felipe tivera emoes demais para uma noite s. Apenas prometeu:
 Vou pensar.


8.

Dessa noite em diante, a vida de Felipe na capital fixou-se em duas rotinas: assistir s corridas de cross com os tios, Tuta e Joyce e freqentar o Vago no mnimo
duas vezes por semana. Certo domingo, no intervalo das corridas, toparam com Sandro, que ignorou Felipe, mas olhou fixamente para Joyce e sorriu.
 Quis me provocar  disse Felipe.
 Se julga um rei  comentou Joyce, olhando para trs.
Nas pistas, Felipe era mero espectador, mas no Vago, no. L era o namorado de Joyce, a mais bela passageira da casa, e tambm um danarino de rock que j procuravam
imitar devido a seu estilo criativo e pessoal. Admirado pelos freqentadores, sempre convidavam ele e a Joyce para se sentarem s mesas mais badaladas, inclusive
a de um produtor de televiso, e at o gerente do estabelecimento uma noite lhes disse:
 Se alguma vez no tiverem trocados para os ingressos, mandem me chamar. Uma dupla como vocs anima o salo, entusiasma a turma. E hoje sou eu que pago a conta.
Mas o melhor era o namoro, aquela coisa boa que nascia entre Felipe e Joyce, os telefonemas, os encontros, os cinemas, os papos, e at os atrasos dela. A falta de
pontualidade seria seu nico defeito? E os tios, o que pensavam? Lola, com seu aparelho de raios X nos olhos, no deixava passar nada.
 Como vai a novela?
 Que novela, tia?
 Todo namoro  uma novela, termine ou no em casamento. A sua vai bem?
 Tudo em cima. Legal s pampas!
Sob o olhar malicioso da tia, Felipe passou  oficina, onde Clvis e Tuta tinham um problema com uma 180.
 Teramos de fazer um teste  dizia o patro.
 Acha necessrio?
 Claro. Bruno vai correr domingo.
 Ento d tempo para ele mesmo testar a mquina.
 Mas ele telefonou do Rio dizendo que s volta sbado  noite  lamentou Clvis.
 Ora, outro qualquer pode fazer o teste.
E ao dizerem isso, Tuta e Clvis olharam para Felipe.
 Quer nos fazer um favor, F? Testar a moto?
 No tenho carta, tio.
 No se faz teste de cross, na rua, garoto. Ponha a moto na caminhonete, Tuta  ordenou Clvis.
Tuta, porm, no vendo nenhuma reao de Felipe, permaneceu parado.
 Se tiver medo eu mesmo piloto  disse.  No sou dos bons, mas quebro um galho.
 Medo? O que  isso?  perguntou Felipe.  Tudo que tem rodas  comigo mesmo.  Pura falao.
Estava com aquele friozinho, sim, porque sabia que no era a moto, mas o piloto, que seria testado.




9.

P
eriferia da cidade. Clvis estacionou a caminhonete.
  aqui.
 O que  aqui?  perguntou Felipe.  A pista?
Tuta explicou:
 Isto  uma ex-pista que as chuvaradas estragaram, aplainando uns morros que existiam. Mas restaram alguns obstculos dos bons. Para treinos ainda serve. Queremos
que d umas voltas sem forar muito, apenas o suficiente para a gente sentir se o motor est no ponto.
A moto foi posta no cho e Felipe montou-a. Quando ligava o motor apareceram dois motoqueiros, com boas mquinas, e entraram na pista.
 No ligue pra eles  disse Clvis.  Faa seu servio e s.
Estranhando a moto, mal sentado, Felipe fez uma volta lenta, quase parando em certos obstculos. Os outros passaram por ele, familiarizados com a pista e com as
motocas. Na segunda volta acelerou mais e, na terceira, saltou o nico king-kong que sobrara da antiga pista, logo seguido de uma costela-de-vaca. Da por diante,
o motor 0K, passou a correr tudo que sabia, dando espetculo  parte nas curvas, subidas e descidas, e quando, na primeira derrapagem, Clvis e Tuta viram Felipe
com o focinho no cho, ele levantou-se, montou e continuou no mesmo ritmo, tranqilamente.
 Pode parar!  gritou Clvis.
Felipe no ouviu ou fez que no, e ultrapassou uma das motos, usando mais a cabea que o acelerador, e aproximou-se da outra, sem atropelos, na sua, firme no banco
e atento  prxima curva. Clvis e Tuta entreolharam-se quando Felipe passou a segunda moto. Os dois pilotos, inconformados, comearam a atac-lo, curvados sobre
as mquinas, como se aquilo fosse uma corrida de verdade. Um deles exagerou, deu uma escorregadela e perdeu Felipe de vista. O outro tentou a ultrapassagem, chegando
a emparelhar, mas atrapalhou-se na costela-de-vaca e errou na troca de marchas, enquanto Felipe, aliviado, ganhava distncia.
Quando Felipe parou diante da caminhonete, perguntou:
 Que tal a moto? Certinha?
 A mo-moto...  gaguejou o tio.  Perguntou da moto? Quem est aprovado  voc, Tuta, repita pra ele o que voc me disse agora. Repita.
 Disse que nunca vi um estreante com esse tch. Tem pinta de campeo.
Os dois motoqueiros pararam ao lado.
 Onde voc tem corrido?  perguntou um deles.
 Em nenhum lugar.
 Vem sempre treinar aqui?
  a primeira vez que corro numa pista.
Ambos fizeram uma cara de descrdito e o outro comentou:
 Se for verdade, voc vai longe, rapaz.
Apesar da inesperada exibio que havia assistido, tio Clvis nada disse durante a viagem de volta.
Chegando em casa, cansado, Felipe foi para o quarto e largou-se na cama. Por que Clovo subitamente se calara? Ento a porta se abriu e entraram o tio e Tuta. No
falaram logo, olhando-o.
 F...  comeou o veterano.  Estive falando com Tuta... No foi, Tuta? Bem, o que me diz de disputar o campeonato extra de estreantes e novatos? Na verdade
haver mais estreantes que novatos. Cinco provinhas. Apenas por entretenimento.
Felipe sentou-se e tremeu nas bases.
 Campeonato?
 Acho que voc no far feio  disse Tuta.
Como Felipe no respondesse, Clvis deu-lhe uma opo:
 No precisa responder j. Pense. Mas as inscries encerram-se esta semana. Agora vamos jantar. Lola fez um prato que voc gosta.


10.

Aquela noite no Vago foi o mximo. Joyce usava um vestido que brilhava, ela que no dispensava luxo para aparecer. Foi um tal de deixar passar, abrir alas, sempre
que a dupla se dirigia  pista de dana. Quem inventa, curte o que faz, sem aquela de danar quadradinho, logo vira rei num lugar desses.
 Veja como a turma est ligada em ns observou Joyce enquanto danavam.  Mas o que h, F? Hoje est eltrico demais!
 Tenho motivos. A sorte est comigo em Sampa City!
 Quais so as ltimas?
 Primeiro a gente dana, a patota quer show, depois eu conto.
Realmente muita gente estava de olho nos dois, os fanticos do rock e os que eram vidrados em Joyce, esses um pouco despeitados e com uma pergunta no gatilho: quem
era aquele rapaz com pinta de interiorano, seu par constante? Nessa turma havia um que parecia querer saltar sobre Felipe. Bote armado. Era o Rato.
 Como se chama aquela moa?  perguntou ao gerente.  A de vestido brilhante?
 Joyce. A mais bonita do Vago.
 E o escoteirinho que est com ela?
 Esse  novo aqui  respondeu o gerente.  Parecem namorados. Interessado nela, Rato?

Quando julgaram que a patota estava satisfeita, Felipe e Joyce retornaram  mesa e ela ouviu a narrativa de sua proeza na pista de treino.
 Mas no foi s isso, no. Tio Clvis e o Tuta querem me inscrever no campeonato extra de estreantes e novatos.
 Puxa! Que retaguarda voc vai ter! Clvis e Tuta!
 Para mim o seu apoio  o mais importante, Joy.
 Vou dar a maior fora, F. Tive namorados que tambm corriam.
Felipe preferiu ignorar quantos namorados, quem eram e at onde foram no motocross. Aquela noite no estava para grilos. Segurou a mo de Joyce sobre a mesa e ambos
esqueceram o que havia ao redor. O mundo ficou s eles. Mas aquela felicidade tinha um espio, o Rato, que, de copo na mo, uma estranha figura vestindo bluso
de couro preto, rondava por l.
Um amigo dele encostou:
 Voc tambm pertence  corriola de fs de Joyce?
 Com uma diferena  garantiu Sandro.  No vou parar nisso.
 E o garoto roqueiro?
 Tenho meu estilo,  cara. O escoteirinho vai sair do preo. Pode apostar.


11.

C
lvis, Tuta e Felipe, o estreante, em sua prpria 180, voltaram mais vezes  ex-pista para treinos e conselhos. Mas no excessivos. Muito blablabl atrapalha, dizia
o tio. A tcnica  fundamental, porm no se deve conter a impulsividade, o arrojo, a coragem do piloto.
Nem sempre Felipe corria s; alguns motoqueiros sempre apareciam, conhecidos de Clvis e Tuta, j experientes. Mesmo esses, tarimbados, surpreendiam-se com o pique
e a desenvoltura de Felipe, dia a dia mais seguro, mais irmo da mquina. Nem os tombos iniciais, to comuns no motocross, o inibiam. J aprendera a cair, afrouxando
os msculos ou saltando fora, a levantar a moto e prosseguir como se nada tivesse acontecido.
 Como estou indo, homem gordo?  perguntou Felipe aps uma seqncia de voltas bem-sucedidas.
 Quero ver voc na pista de verdade  respondeu Clvis, mais moderado nos elogios aps a inscrio.
Mas treinar no era moleza, cansava. Da o gostoso de ficar na cama, lendo as revistas especializadas em motociclismo que o tio assinava. Nessas horas, tia Lola
sempre aparecia com caf ou sucos.
 Como vai de paixo?
 Joy  uma garota legal. A gente se entende bem.
Lola jogava um pouco de gua fria:
 No se entusiasme tanto. Cuidado, menino.
 A senhora no acha que ela  um doce?
Lola passou a mo na cabea dele e respondeu como quem no diz tudo:
 Gosto de Joy,  bonita e sabe das coisas. Mas no  uma daquelas moas do interior. Tem outra cabea. Um pouco de cautela no faz mal a ningum.
Felipe no encucou, preocupado com sua primeira corrida, j prxima. No seria um grande evento porque no contaria com pilotos famosos, porm, para o estreante,
recm-chegado do interior, seria o dia para marcar a sua vida.
 noite da vspera da corrida Felipe j ia dormir, quando o tio entrou no quarto e sentou-se  beira da cama.
 Sabe, daria um brao pra sentir o que est sentindo.
 Confesso que estou com um pouco de medo.
 Esse friozinho no estmago que  o bom.
Uma pergunta importante:
 O senhor espera que eu ganhe?
 Nem eu nem Tuta esperamos. Se a mquina no quebrar e terminar na sexta colocao ter sido uma tima estria. Agora, durma.
Felipe apagou a luz e afundou a cabea no travesseiro. Mas como podia dormir com o ronco daquelas motos emparelhadas  espera do momento da partida? Como?
































Joy!
Joy! Joy!

12.

O
 starting-gate liberou a pista: partiram. Os mais experientes e os que j conheciam o circuito saltaram na frente. Felipe confundiu-se um pouco, aturdido com o
ronco das motos e com receio de que algum esbarro o derrubasse. Decidiu no forar a mquina nas duas primeiras voltas para familiarizar-se com o terreno e avaliar
os obstculos. Foi cauteloso demais, tanto que completou a primeira volta em uma das ltimas colocaes. Antes do planejado, comeou a acelerar, mas viu logo que
aquela no apresentava as facilidades da pista onde treinara. Mais e maiores obstculos. E dezenove outros competidores, todos fervendo.

 Aquele no  o seu escoteirinho?
Joyce, que no tivera calma para sentar-se nas arquibancadas, preferindo ficar de p, mais prxima  pista, voltou o rosto e viu o Rato, ao seu lado, vestindo o
bluso marchetado de couro preto.
 Sim,  o Felipe  disse.  Est estreando.
 Acho que ele errou de esporte. Talvez se de melhor com bicicleta. Ou patinete.

Saltar um king-kong com a pista livre  uma coisa, saltar com motos atrs, aos lados e na frente  outra. O primeiro salto de Felipe no foi perfeito, mas, em compensao,
alguns se saram ainda pior. Dois caram e ficaram na rabeira. Em seguida, numa curva, fazia a primeira ultrapassagem. Foi bom, gostoso, e deu-lhe mais confiana.
Talvez era do que precisava: acreditar. Comeou a soltar-se, afinal no era nenhum grande campeonato. Encare como uma brincadeira que resolveu levar a srio,
aconselhara o tio, que sabia mexer tambm com os fatores psicolgicos. Somente na sexta volta saltou um obstculo como queria, onde justamente ultrapassou mais
um.



 J est em dcimo  observou Joyce, numa torcida discreta, sem queimar emoes. A seu lado, o Rato mordia um sanduche, nada interessado na prova, como se aquele
fosse um simples campeonato para garotos.
 Quer que v buscar um misto-quente? Est timo.
Joyce no respondeu, vendo um competidor cair e Felipe ultrapassar outro. Oitavo... J emparelhava com o nmero 15, stimo colocado. Algum colocou qualquer coisa
na sua mo: um misto-quente, que Rato trouxera.
 No quero.
 Ora, pegue... Mas como vai o escoteirinho?

Felipe j estava em stimo e comeava a apertar o sexto colocado. Uma exclamao geral das arquibancadas anunciava que algum cara. Passou por ele, fora o nmero
3, um dos lderes, que voltou a correr logo atrs de Felipe. Certamente vai tentar reconquistar as posies perdidas, pensou. No posso permitir que me ultrapasse.
Um king-kong! Seu melhor salto. O nmero 3 j no o perseguia de perto. Uma tabuleta informou: duas voltas. Estava em quinto, precisava melhorar para marcar mais
pontos. Mas quando os competidores entraram na ltima volta, continuava na mesma colocao. Ento, ps todas as cautelas no bolso e disparou. Ultrapassou um na primeira
curva e outro j nos ltimos cem metros.
Terminou a primeira bateria em terceiro lugar, fazendo quinze pontos. O primeiro fizera vinte e o segundo, dezessete. O que diria a turma?
No box, Clvis e Tuta o aguardavam ansiosos.
 Como me sa, homem gordo?
 Foi uma das melhores estrias que j vi  disse o tio, abraando-o.  Mas, desa. Eu e Tuta temos de fazer alguns ajustes.
 Onde est a Joy?
 No vimos  disse o Tuta.
 Quem so esses que chegaram na frente?  perguntou Felipe.
 Dois novatos que j disputaram muitas provas. Mas voc chegou na frente de outros tambm experientes.
J trabalhando na moto, Clvis comentou:
 Sua maior faanha foi no deixar o Roberto, o de nmero 3, ultrapass-lo. Nesse pega que voc esquentou.
 Ser que Joy est nas arquibancadas?  insistiu Felipe, olhando para todos os lados.
Um abrao: Joyce.
 Puxa! Voc estava com a bola toda!
 Eh! No exagere! Peguei s um terceirinho...
 Pra quem comeou hoje, queria mais?
 Bem, acho que fiz o possvel.
 Como se sente pra segunda bateria?
 Dessa vez acho que no vou ficar no fundo.
Joyce despediu-se com um beijo e correu para as arquibancadas.
Queria assistir  segunda bateria ao lado de Lola. Sofrer ou sorrir com ela. Sentou-se. Algum logo ocupou o lugar  sua direita: o Rato.

A largada da segunda bateria foi melhor para Felipe. Saiu entre os dez primeiros, preocupando-se a princpio em segurar apenas a sua posio. Ainda estavam todos
embolados, no dava para deslanchar, mas j na terceira volta, no maior declive do circuito, fez a primeira ultrapassagem. Pelo espelho retrovisor percebeu que
havia algum em seu vcuo e manteve-se alerta. Na primeira bateria quase no olhara para o retrovisor, afobao. Uma moto  sua frente derrapou e caiu, era que
todos estavam acelerando mais. Fez o mesmo, para no perder terreno, mas na prxima curva foi sua vez de escorregar.

 Veja! O escoteirinho beijou a lona!  disse o Rato.
 No foi nada, j est de p.
 Estreante, depois do primeiro tombo, sempre perde o embalo. Eu sei das coisas.
Joyce mordia os lbios, Lola esfregava as mos.
Felipe desviou de uma moto que pipocava, com problemas, e na mesma volta ultrapassou duas, ambas em curvas. Acelerou mais, emparelhando com outra. Pega curto, mais
uma posio conquistada. Ouviu urras e aplausos, o pblico j o notara. Os aficionados deviam estar perguntando quem era aquele nmero 19, se estreante ou novato,
e de onde viera. Na metade da segunda bateria colocava-se em quinto lugar, onze pontos, caso terminasse a prova nessa posio. A soma de pontos obtidos nas duas
baterias  que determina a ordem final dos participantes. Precisava garantir mais alguns se pretendesse subir no pdio. Colou-se no quarto colocado. O que estava
em terceiro tambm no ia longe. Chato eram os retardatrios, que tendo perdido uma volta, s vezes se interpunham entre ele e os vanguardeiros. Um king-kong! Que
belo salto! Sua turminha devia ter vibrado. Ouviu seu nmero pelos alto-falantes. O locutor certamente registrara a preza. O piloto que corria em segundo escorregou
e ficou rodopiando, enquanto trs, Felipe inclusive, passavam por ele. Logo em seguida, ultrapassando, j era o terceiro, igualzinho como na primeira bateria.
Na ltima volta, Felipe admitiu que no dava para vencer, mas emparelhou-se com o segundo colocado, passou na frente e garantiu os dezessete pontos da segunda
colocao.
Clvis e Tuta correram na direo de Felipe para os primeiros abraos, eufricos.
 Puxa! Quase ganho!  exclamou o rapaz.
 Quase? Voc ganhou, no sabia? Ganhou!
 Eu? Como assim?
 O piloto que venceu a primeira bateria quebrou e saiu fora da prova  explicou Clvis.  O que venceu esta, tinha quebrado na outra.
 E o que ficou em segundo na primeira, desta vez terminou em quarto  acrescentou Tuta.
Ento tinha ganho? Supunha que no cmputo geral ficaria em segundo, pelo que j estava contente.
Os organizadores da prova foram conduzindo Felipe para o pdio. Ficaria l em cima, no degrau mais alto; nos outros, o segundo e o terceiro colocados. Puseram-lhe
nas mos um champanha aberto. Chacoalhou-o. Aquele xito merecia muita espuma. Veio depois uma faixa e um trofu. Olhou para baixo e viu tia Lola, abraando Clvis
e Tuta. Batiam fotos. Mas onde estava Joy? Onde se metera? Acenou para o pblico. O segundo e o terceiro colocados foram cumpriment-lo e, em seguida, desceram
do pdio. Ele no, queria que Joyce o visse l. Mas onde ela estava?
 Eh! Vai virar esttua?
Era Joyce, que j chegara, e abria os braos para apert-lo.
 Pensei que tivesse desmaiado!  disse Felipe.  Que tinha ido pro departamento mdico.
Joy abraou-o.
 Voc  o maior! Ganhar numa estria  o mximo.
 Tive sorte, isso sim. Os vencedores das baterias quebraram. Eu nem sabia que tinha ganho!
Lola fez uma sugesto:
 O que aconteceu foi bom demais. Temos de comemorar num restaurante.  Idia imediatamente aprovada.  Vem com a gente, Joyce?
 Se vou? Mas no  uma reunio em famlia?
 Ora, Joyce  protestou Felipe.  Se voc no for, no vou tambm.
Ainda acenando para o pblico, com sua faixa de vencedor e seu trofu, Felipe abraou Joyce, e, todos sorrindo, numa tarde para no ser esquecida, dirigiram-se
 sada da pista.
 Sabe quem vi por a?  disse Felipe  namorada.  O tal de Rato. Acho que estraguei o dia dele.



13.

As outras provas do campeonato foram realizadas em cidades do interior. E algumas semanas depois, Felipe leu orgulhoso no jornal:





14.

A conquista do campeonato mereceu uma festa na prpria oficina de Clvis, que reuniu alguns participantes, organizadores do certame e amigos. Joyce compareceu
um tanto punk, mais gata que nunca, num visual incrvel. Tinham ligado o som e ela danou com Felipe, Clvis e Tuta, muito bem-humorada, mas no ficou at o fim
da festa.
  cedo ainda, Joy! Fique!
 A me est meio adoentada. A gente se v. Tchau.
Para Felipe a festa perdeu a graa, mas a turma s se dispersou depois da meia-noite.
Na manh seguinte, na cozinha, quando lhe servia caf com leite, Lola lhe perguntou:
 E agora, Felipe?
 Agora o qu, tia?
 Vai ficar olhando para o trofu de campeo ou tem outros planos?
 Meu plano  disputar outro campeonato. Quem sabe o paulista, depois o brasileiro.
 Eu me referi aos estudos. As aulas vo comear, F.
 Vou dar uma lida nos livros para recordar algumas matrias  garantiu o campeo.  E  pra j!
Antes de recolher-se ao quarto, Felipe pegou o jornal do dia na loja. Largado na cama, fixou-se no caderno esportivo, onde uma foto, um piloto e sua moto, chamou-lhe
a ateno:
Rato, um dos favoritos do Continental Motocross. Era um campeonato especial, que reuniria campees de diversas regies e Estados, dos mais festejados e disputados
pelos patrocinadores. Correr sob patrocnio era a meta que Rato j alcanara.
 noite, Felipe foi para o Vago. J no esperava Joyce  porta, entrava. Encostou-se ao balco do bar e pediu um suco.
 Brigou com ela?  perguntou o gerente.
 No, estou esperando por ela.
O gerente fez uma cara esquisita e voltou a circular pelo salo. Felipe tomou um gole de suco e lanou um olhar absorto para a pista. Subitamente o corao disparou.
Danando, como se ao balano de uma antiga amizade, juntos, sorrindo, l estavam Joyce... e Rato. Sem saber o que fazer, Felipe no fez nada. Permaneceu l apenas
olhando. Terminado o nmero musical, Joyce deixou a pista e aproximou-se dele.
 Eh, F! J chegou?
 Estava danando com aquele cara?
 Mas ele no dana como voc. No tem o seu relaxo.
 Vocs se conheciam?
 J trocamos algumas palavras. No vai se zangar por causa disso, vai? Afinal no Vago todos se conhecem.
Felipe tentava controlar-se, mas no dava.
 No quero que dance mais com esse sujeito. Nem que fale com ele. Somos inimigos.
Joyce quis colocar um ponto-final no caso.
 Felipe, isso no  uma cidadezinha do interior. Aqui no se briga por to pouco.
 Joy, ele me provocou na estrada e         aqui no Vago. No posso consentir.
Ela mantinha-se calma, a moa urbana, civilizada, que no ligava para coisas sem importncia.
 Vamos danar, F. Assim voc se acalma.
 No quero danar.
 E eu no quero ficar na sua, discutindo.
 Vou levar voc pra casa. A noite j melou.
 distncia, o Rato viu Felipe e Joyce abandonando o Vago. Alguns dos seus amigos o cercaram para fofocar.
 Esta  outra corrida que no perco  disse.

Meia hora depois, Felipe chegava  sua casa para surpresa de Lola.
 To cedo assim num sbado? Aconteceu alguma coisa?  perguntou, ela que adivinhava tudo.
 O Vago estava chato.
 Joy estava l?
 Estava.
 Ela tambm foi para casa?
 Foi.
A tia quis encompridar a pergunta:
 Vamos amanh ver a primeira corrida do Continental?
Para ver Sandro ganhar?
 Vou aproveitar a tarde para dar uma lida nos livros...
 Boa idia. Sua me no quer qu se saia mal nos estudos por causa do motocross.
Felipe recolheu-se ao quarto, mas no leu, no ouviu rdio, no fez nada. Ficou apenas olhando para a parede.


15.

N0 domingo, Felipe ficou em casa sozinho at a hora do almoo, quando os tios e Tuta voltaram da corrida. Aproximou-se do mecnico. Joyce no telefonara. Onde ela
teria ido?
 Como  que foi l?  perguntou, disfarando o interesse.
 Ganhou um tal Sidney. O Rato ficou em terceiro.
No era no que Felipe estava interessado.
 Muitas garotas?
 Como sempre  respondeu Tuta.   o que no falta nas corridas.
Uma pausa e outra pergunta:
 Alguma pessoa conhecida?
A bomba:
 Joy estava l.
 Estava???
 Por que no foi l, Felipe?
 Fiquei estudando  respondeu ele, afastando-se. No era dose para dividir com os outros. Foi para o quarto e despencou na cama. Chorando.

Na tera, Joyce telefonou. Parecia saudosa. Vamos ao Vago hoje  noite? Era justamente o que Felipe queria ouvir. Chegou bem cedo e esperou-a  porta. Mais seguro
do que entrar e encontr-la danando com Sandro. O corao, outra vez! Joyce chegando!
Foi uma noite quase como as outras, embora Joyce no disse que fora ao cross no domingo, e Felipe, para evitar novo atrito, nada perguntou.
 Quando a gente se v?  perguntou  sada.  Sbado?
Joyce, infelizmente...
 Vou fazer uma pequena viagem com mame. Volto s na outra semana.
 Sentirei sua falta.
 Mas quero pedir um favor  disse ela.  No venha ao Vago na minha ausncia. Cime  como algumas doenas, pega. Peguei de voc. Assim que eu voltar, telefono.
Felipe lamentou a viagem, porm gostou de saber que Joyce tinha cime dele. Maior prova de que o amava. Aproveitaria os dias de ausncia da namorada para estudar.
E foi o que realmente fez, com bastante interesse. No resistiu, porm, a um convite do tio.
 Vamos assistir a uma das provas do Continental?
Felipe aceitou e partiu com o tio e Tuta. O que viu l foi o Rato, orgulhoso, subir no pdio, j em sua segunda vitria no campeonato. O campeonato mal comeara
e j se dizia que o caneco seria dele. Felipe certamente no aplaudiu.
Na volta, quando a caminhonete de Clvis aproximava-se da loja, Felipe disse:
 Quero voltar ao treinos, tio.
 E os estudos?
 Posso estudar e treinar.
 No sei se sua me aprovaria, F.
Felipe encontrou um meio-termo:
 S para no perder a forma, tio. Quero dar um passo  frente.
 Esse passo  frente que  barra  comentou Tuta. Como estreante talvez tenha chegado ao limite, mas passar da a conversa  outra. Um Rato no se faz de um dia
para o outro, no , patro?

16.

Felipe voltou a treinar, de leve, usando a ex-pista, orientado pelo tio e por Tuta. Mas no se sentia legal. Joyce ainda no voltara. Dissera que demoraria uma
semana e j fazia um ms. Lola, com o raio X ligado, observava sua tristeza.
 V se distrair hoje  noite  ela aconselhou.  D um pulo no Vago.
 Prometi a Joy que no iria l sem ela.
 S dar uma espiada, comer um sanduche, no  traio. Voc est precisando desanuviar.
Essa palavra, desanuviar, deu resultado. Felipe concordou. E  noite foi ao Vago, pensando no que responderia se na volta Joyce lhe perguntasse se fora  danceteria.
Deveria mentir? No, ele no mentiria.
O Vago estava lotado aquela noite. Felipe encostou-se no bar.  Voc no  o moo que ganhou o campeonato extra de motocross?
Felipe olhou ao lado e viu uma gatona loura, bonita, muito chique, com um copo de suco na mo.
 Sou  respondeu.
 Vi duas provas, voc venceu uma delas.
 Vai sempre ao cross?
 Minha turma  gamada em motos. Mas como  mesmo seu nome?
 Felipe.
 No vou esquecer mais  disse ela.  Est em outro campeonato?
 S treinando.
Um grupo aproximou-se da gata loura e um rapaz, com um bon enterrado na cabea, fazendo um gnero caricato, perguntou:
 A gente veio aqui pra danar ou pra conversar, Dbora?
A moa fez um adeusinho para Felipe e afastou-se com a turminha, mas antes de entrar na pista lanou outro olhar, simptico, para o campeo. Ficou vaidoso. A tal
Dbora, toda bacana e enturmada, falara com ele com a maior admirao. Quem no gosta de ser badalado? Tomou um refrigerante, papou um hambrguer, curtindo o som
 a noite era de rock-balada, suave  e j se dispunha a voltar para casa com a cuca mais leve, quando viu um fantasma.
 Joyce! Voc? Quando chegou?
 Ontem.
 Por que no me ligou?
 Seu telefone deve estar com defeito, s dava ocupado.
Felipe no engoliu essa.
 E por que no foi at l?
 Porque sabia que voc viria aqui esta noite.
 Como sabia, se prometi no vir?
 Prometeu, mas veio.
E ela, no tinha vindo? Felipe no entendia. Mas a explicao de tudo j estava a caminho, usando um bluso preto de couro, marchetado com placas metlicas. Parecia
uma figura de histria em quadrinhos, vilo de filmes enlatados da tev: o Rato.
 Como vai, escoteirinho?
Felipe ficou mudo, mas o dio falou em seu lugar.
 O que esse cara faz com voc?
Joyce sabia lidar com panos quentes, disse:
 Deixem de besteira e vamos os trs comer uns hambrgueres. Estou faminta.
Felipe no foi nessa. Queria brigar com o mundo.
 Vamos, mas sem esse pilantra.
 Ora, Felipe, ele  o Rato famoso. Dem-se as mos e tudo bem.
Felipe no se moveu.
 Apertar a mo desse cara... V voc e fique com ele.
O Rato desfez o sorriso de gozao, irritado.
 Veja como fala, escoteirinho. Gente melhor que voc afina e me respeita.
 Eu te respeitar... Ou pensa que esse couro preto e essas latas me assustam?
Joyce viu que a briga estava por um triz e pegou Felipe pelo brao.
 Vamos para casa.
Rato no permitiu que Joyce o deixasse para acompanhar Felipe. Puxou-a com fora para seu lado.
 O escoteirinho que v sozinho. No sabe o caminho? E empurrou Felipe na direo da porta.
Felipe chocou-se com algum que passava e num gesto, anterior a qualquer deciso, deu um murro seco e rpido no estmago do Rato, que recuou fazendo uma careta de
surpresa, dor ou dio, ou da soma de tudo isso. Respirou fundo, aproximou-se e deu em Felipe dois socos rpidos, atirando-o de encontro a uma mesa... Foi s o comeo:
logo os dois esmurravam-se ao mesmo tempo, j cercados pelos freqentadores do Vago, mais dispostos a assistir do que a interromper a briga. Embora mais jovem e
menos musculoso, Felipe conseguiu a princpio lutar de igual para igual, conquistando a torcida. Mas o Rato, tarimbado, mais controlado, fez desequilibrar a balana.



 Olhem onde ele foi parar!
Arremessado por um golpe, Felipe foi lanado sobre uma mesa. Voltou a atacar, mais dio que fora, enquanto o Rato, para dar espetculo, criar rebulio, preferia
empurrar Felipe s mesas, provocando a queda de cadeiras, garrafas e copos.
O gerente e alguns garons do Vago tentaram acabar o rebu, tarefa difcil porque Felipe continuava insistindo em lutar, apesar dos tombos consecutivos, do sangue
no rosto e do estado lastimvel de sua roupa, manchada pelos sanduches amassados sobre as mesas.
Joyce, aturdida, s sabia dizer:
 No, no faam isso... Parem, por favor! Rato! Felipe! Um empurro mais forte fez com que Felipe deslizasse at a pista de dana. Ser exposto assim ao ridculo
dos esbarres nas mesas e dos escorreges provocava risos, era pior que apanhar de verdade. Dbora estaria vendo? Levantou-se, mas dessa vez os garons criaram uma
barreira, no permitindo que prosseguisse na batalha perdida. Sem opor resistncia, derrotado, foi levado at a porta do Vago, sob olhares curiosos e alguns comentrios
de pura gozao.
A inteno de Felipe era a de no voltar logo para casa, porm no dava para andar pelas ruas, sangrando, e a roupa daquele jeito. Parecia um espantalho sob uma
ventania.
Tia Lola quase no o reconheceu.
 F, o que houve?
Contar?
 Hoje no, por favor.
Foi para o quarto e reviu na parede, com detalhes que lhe haviam escapado no momento, tudo o que acontecera no Vago. Foi sua noite mais longa em Sampa City.


17.

Na manh seguinte, sentindo dores em todo o corpo, Felipe viu o tio entrar no quarto.
 Precisa de alguma coisa, F?
 Est tudo bem.
 Foi uma briga?
 Foi.
 Esquea. Eu tambm tive algumas em sua idade. Faa de conta que nada aconteceu.
Quando o tio saiu do quarto, Felipe tomou um banho e depois arrumou a mala. Na cozinha, tomando caf, avisou os tios de que ia visitar a me e a irm. Apanharia
o nibus na rodoviria ainda pela manh. Lola ficou apreensiva.
 Voc volta?  perguntou, incrdula.
 Volto, acho que volto  ele respondeu, sem convico.
 Gostaramos que voltasse  ela disse, quase numa splica.
Tio Clvis acompanhou Felipe at a rodoviria. Quase no conversaram no caminho, o rapaz ainda abatido, sem nimo at para encarar as pessoas. Alm do mais, a indeciso
crescia: era uma simples visita  famlia ou se fixaria definitivamente em sua cidade natal?
Antes de o nibus partir, Clvis aconselhou:
 Erga a cabea, F. Voc  jovem. Sua vida ainda est nas primeiras voltas...
Foram trs horas olhando pela janela, vendo o cu e a estrada, e sentindo por dentro um grande vazio. Mas ao chegar a seu destino, Felipe ficou emocionado: a irm
e o cunhado, avisados, esperavam na pequena estao. Resolveu reagir, ocultando com sorrisos a decepo sofrida na capital.
 Sabe que  o heri da cidade?  informou o cunhado.
 Heri, por qu?
 Porque ganhou o campeonato de motocross!
 Ora, foi um campeonato sem importncia.
A irm contou:
 O jornaleco daqui deu uma pgina inteira. Guardei para voc.
Foi levado para casa num fusco. Um trajeto de ruas tranqilas e arborizadas. Precisava de algum tempo para reacostumar-se quela paz interiorana.
A me estava no jardim da casa,  espera de Felipe para disparar um grande abrao.
 No imaginava que viesse antes do inicio das aulas, filho!
 Bateu a saudade.
Felipe, bancando o artista, no descolou do rosto o sorriso feito para afastar suspeitas. Ao entrar na velha casa, onde nascera, a emoo voltou ainda mais forte,
como se estivesse ausente h muitos anos.
 Fiz o prato que voc gosta  disse dona Glria.
 E eu no estou sentindo o cheirinho?
Durante o almoo, as perguntas. A me de Felipe queria saber de sua sade; o cunhado, detalhes sobre o campeonato de motocross; e a irm, Vilma, queria que falasse
das garotas da capital. Mas no assim ordenadamente: um verdadeiro bombardeio de perguntas.
 Fiz sucesso numa danceteria  disse o recm-chegado.
 Graas  dupla que ns formamos aqui, Vilma. A turma at fazia roda para me ver danar.
 Ento deve ter arranjado logo uma namorada  a irm supos, curiosa.
Felipe fizera a viagem para esquecer Joyce.
 No, apenas parceiras de dana.
 A namorada dele nesse tempo foi a moto  disse o cunhado.
Depois do almoo, Felipe foi para seu quarto; estava tudo no lugar, como deixara. Na parede, o retrato dele em sua 180, batido no dia da compra da mquina. Na estante,
os livros, uma de suas paixes. Resolveu tirar uma soneca e para isso bastou deitar na cama e fechar os olhos. O cansao vinha da noite anterior, do rebu no Vago.
Acordou horas depois, ouvindo passarinhos, o que em So Paulo era impossvel acontecer. Refez a pergunta que viajara com ele: fico ou volto para aquele campo de
batalha? Havia um cursinho numa cidade prxima. Era s decidir.
A noite, Felipe vestiu-se para uma visita ao clube, o nico da cidade, centro de reunio da garotada e onde havia o melhor salo de baile da regio. Fora l que
deixara de ser um menino para ser um jovem, j sonhando em estudar e quem sabe viver para sempre na capital. Passou pelo porto e, logo  entrada, no saguo, sentiu-se
importante: num quadro reservado aos avisos e notcias de interesse dos associados estava a pgina dO Clarim, jornal que sua me recortara. MOTINHA VENCE CAMPEONATO
DE MOTOCROSS. L, era Motinha, filho do Mota, que fora presidente da cmara dos vereadores, e era ainda muito lembrado na cidade.
Felipe dirigiu-se ao salo principal, dos jogos de mesa, leitura, bate-papos e fofocas. Tudo o que acontecia na regio comentava-se ali, sempre com muita graa.
Reconheceu logo um grupo de amigos, mas permaneceu  porta, como mero visitante.
O Magro, colega de sala do segundo grau, foi quem o viu primeiro. Sua voz dominou o salo:
 h! Pessoal! Tem gente famosa visitando o clube!
Imediatamente, o cerco: Pinheiro, Bambaleo, Caula, John Lennon, Mame-me-disse, Rodrigues 1 e 2, gmeos, e o Paranhos, que tambm tinha motoca. Felipe somente
recebera tantos abraos no dia em que vencera o campeonato. Mas responder a mil perguntas ao mesmo tempo no dava.
Foram todos para o bar do clube, ao ar livre, onde outros amigos e conhecidos aproximaram-se, querendo saber da vida em So Paulo e dos pormenores de sua vitria
no cross.
 No tinha nenhum cobro no campeonato  disse Felipe, modesto.
 Mas voc vai continuar, no vai?  perguntou Paranhos.
 Ainda no sei, vamos ver.
A turma no entendia a modstia e os ainda no sei de Felipe.
 Voc chegou, viu e venceu e ainda diz que no sabe? O gostinho da fama no agradou?
 Posso ser famoso aqui, mas l ningum me conhece. Quando a gente desce do pdio, tudo continua igual. Mas chega de motocross, pessoal. Agora, quem paga o qu?
Felipe estava precisando de uma noite assim, longa, alegre e cordial. At o presidente do clube, que era o vice-prefeito, apareceu para cumprimentar o visitante.
Garantiu que mandaria afixar no quadro notcias de todas as vitrias que Felipe obtivesse nas pistas. Mas no foi uma reunio s de barbados, lindas garotas da
sociedade local, chavo sempre usado pelo jornal da cidade, compareceram ao clube para conhecer ou rever o ilustre personagem. Uma delas, Clia, das mais gr-finas,
que lhe dissera um no no baile de Aleluia, pretextando indisposio, foi a que mais se mostrou assanhada, oferecida, porm recebeu o troco, um ol seco e formal
de campeo. Forra!
No dia seguinte, a festa continuou: Felipe deu entrevista na emissora de rdio local, apresentado como o maior esportista da cidade. Achou aquilo um tanto ridculo,
exagerado, mas agentou firme, respondendo s perguntas com desembarao. O jornal, semanal, voltou a falar dele com esta manchete: MOTINHA, O REI DA MOTOCA, CHEGOU!.
 Nem seu pai teve tanto cartaz na cidade!  comentou dona Glria.  Ainda vo dar seu nome a uma rua, como ele tem!
 Papai tinha miolo, advogado, promotor pblico  respondeu Felipe.  Eu ainda no provei nada, apenas ganhei um campeonato de motos.
A irm entrou com o jornal.
 Aqui diz que sbado vai haver um baile no clube em sua homenagem. Est com tudo, F!
O baile foi gostoso, com o salo cheio, palavras de obaoba, proferidas pelo presidente, e um mundo de garotas bonitas, todas querendo danar com o campeo. Felipe
e Vilma, saudoso par de roqueiros, deram incio  festa, com a corda toda, fazendo mil peripcias pelo salo, uma aula grtis para quem quisesse aprender. Depois,
o campeo ficou  disposio das outras damas, que no lhe deram sossego at o final do baile.
Vida boa: acordar com os passarinhos, estar perto da famlia, cercado de amigos e considerado o heri esportivo da cidade. Com tudo isso, Felipe perguntava-se: fico
ou volto?
Estava mais para o fico do que para o volto, quando o Paranhos lhe mostrou o ltimo nmero de uma revista de motocross. Em cores, pgina inteira, em plena ao,
a moto toda inclinada numa curva, ele: SANDRO (O RATO) LIDERA O CONTINENTAL MOTOCROSS.
 Esse  o cobro do cross.
  mais falao da imprensa  disse Felipe.
 J disputou com ele?
 Na pista, no, foi na estrada, quando ia para Sampa. Adivinha quem chegou na frente?
Paranhos fez aquela cara, que todos sabem, de quem ouve e no acredita. Lorota. Felipe voltou para casa com aquela foto acendendo e apagando diante dos olhos. Foi
para o quarto, deitou, relaxou, pensou e...
Dona Glria entrou no quarto do filho.
 Vai um cafezinho, F?
Decidiu:
 Me, amanh eu volto pra casa dos tios.


18.

Ao ver o sobrinho entrar na loja, Lola apertou-o com fora e beijou-o. Clvis e Tuta entreolharam-se. Haviam apostado: ele volta ou no?
 Como vai, homem gordo?
 Muito bem, Felipe.
Tuta:
 Vejam como ele engordou! A comida da mame deve ser um negcio!
 Veio firme para encarar os estudos?  perguntou o tio. Felipe fez uma pausa, criando um suspense.
 S para encarar os estudos, no. Quero correr. D pra me inscrever na prxima, tio?
Felipe tirava as roupas da mala, quando a tia entrou.
 Como est o pessoal l?
 Numa boa. Mandaram mil lembranas.
 E a cidade, F? Estranhou?
 Agora que vivo em So Paulo aquilo parece uma cidade de brinquedo, um cenrio de novela das seis.
Lola riu, mas tinha algo srio a dizer.
 Estive com Joyce.
Felipe tentou ser natural, falhou.
 Onde?
 Encontrei-a no supermercado, mas tive a impresso de que esperava por mim. Ela sabe que vou l s sextas de manh. Disse que...
 Tia    interrompeu Felipe,  no quero saber nada dessa pessoa. Acabou.        -
 Est certo, tudo tem seu fim. Apenas queria transmitir o que ela me disse. Alis, Joy no estava com boa cara... Sem aquele brilho.
Felipe desviou o olhar.
 Mas namorando com o Rato...
 Est, com o Rato, mas disse que ainda gosta de voc, que est muito dividida, que...
 Obrigado pela dica, tia, porm estou em outra. Apaguei Joy do meu quadro-negro  garantiu Felipe.
Quando Lola saiu do quarto, quem pareceu meio apagado foi ele. Bastara ouvir o nome dela para aquelas emoes voltarem em onda.  mais difcil resistir s lembranas
aqui em So Paulo, concluiu Felipe.
 noite, Felipe jantou com os tios e com Tuta, muito aceso.
 Ento quer correr mesmo?  perguntou o tio.
 Pensou que tivesse mudado de idia? Continuo ligado.
 Gostei de ouvir!  exclamou Tuta.  Confio em voc, garoto!
Clvis, sempre por dentro do motocross, foi informando:
 O campeonato que est em curso  o Continental Motocross, tradicional. Outro, do qual possa participar, oficializado, vai demorar. Os que restam por a so corridas
avulsas, que no do cartaz, no somam nada, mas servem para o estreante ou novato ganhar experincia.
 Topo qualquer coisa  disse Felipe.  O que eu quero  correr.
 A gente cuida disso  afirmou Tuta  Queremos que se familiarize com marcas, modelos, cilindradas, tudo.
  isso a  confirmou Clvis.
 Obrigado pela colher  agradeceu Felipe.  Farei o possvel para no decepcionar vocs. Agora vou sair.
 Aonde vai?  quis saber Lola, ainda traumatizada pela surra que o sobrinho levara na danceteria.
 Dar um giro por a, respirar. Tchau.
Felipe de fato no sabia onde ia. Foi andando, as pernas resolvendo por ele. Quando acordou, estava entrando no Vago.


19.

Felipe no fora ao Vago para tirar a forra. Era que seu eu, l dentro, queria ver como se comportaria, qual a sua reao, no cenrio da pancadaria. Uma pessoa,
como qualquer mquina, precisa ser testada. Os primeiros momentos foram desagradveis: tinha a impresso de que todos olhavam para ele e faziam comentrios. Podia
ser apenas impresso? No bar, aproximou-se de um garom que havia tentado separ-lo do Rato.
 Ol!
O garom respondeu o Ol! e continuou o seu trabalho. O rebu devia estar esquecido, no fora o nico ocorrido no Vago. Pediu um refrigerante, mais aliviado,
j pensando nas corridas avulsas.
Um toque suave no ombro.
 Lembra de mim?
Era para esquecer? Dbora, a fzoca chique. E com uma pinta de arrasar.
 Quem v voc uma vez...
 Voc sumiu, onde tem andado? Venho procurando por voc.
 Fui visitar a famlia, no interior.
Dbora, franca:
 Pensei que tivesse desaparecido por causa daquela confuso.
J que ela tocara no assunto:
 Viu o vexame todo?
 Vi, sim. At mandei um coleguinha ajudar voc, mas o cara ficou com medo do Rato. Machucou-se muito?
 No  respondeu Felipe.  Foi s o astral que baixou, mas tudo azul.
Ela continuou, muito interessada:
 O motivo foi aquela garota?
 Sim, foi o piv do crime, como dizem os jornais na seo policial. Mas no estou nem a, j passou.
Dbora fez uma sugesto quente:
 Vamos danar?
 E a turminha?
 Dispersa pelo salo.
Dbora no danava como Joy; faltava-lhe flexibilidade, jogo de pernas e balano, mas por que ficar comparando uma com outra? Seu forte era a sua classe, as roupas
incrementadas, na moda, cheirando a dinheiro. Alis, ela toda, a voz, o jeito, o andar, era de quem tinha famfiia certinha e com uma grande conta no banco. Para
Felipe uma companhia como aquela cara do cu, depois da trombada que levara. Mas era Dbora quem parecia mais contente e realizada.
Danavam, ora separados, ora juntinhos, afinando os estilos, combinando os movimentos, quando um olhar bateu em Felipe  frio e despeitado. Vinha de uma mesa, cheia
de garrafas, ocupada por Joyce, Sandro e outro casal de namorados. Dbora no perdeu o lance e perguntou:
 Viu quem est a?
 Vi, mas nem estou ligando.
Mas estava. Era mais difcil danar sob o olhar de Joyce. Ficou com os movimentos duros, desarticulados.
Dbora, viva, percebeu:
 Vamos beber alguma coisa.
Melhor na mesa. Felipe estava mesmo precisando de um refrigerante. Para demonstrar que a presena de Joyce no o perturbava, fez perguntas a Dbora sobre sua vida,
seus amigos e ocupaes. Confirmando o que aparentava, ela levava a vida que pedira a Deus. Os pais, ricos, viajavam muito, e ela prpria conhecia inmeros pases.
Seu maior luxo era j ter esquiado na neve. Mas sua preocupao no momento era o curso de comunicaes. Pretendia ser jornalista ou produtora de tev. Um ano mais
velha que Felipe, terminara o segundo grau com notas to altas que o pai, cumprindo promessa, lhe dera um carro de presente.
 E voc, fale de voc  exigiu.
 Estou desorientado  confessou Felipe.  Ainda no escolhi o caminho. Minha me quer que eu curse administrao de empresas, mas nem sei direito o que  isso.
No faz mal. Eu resolvo.
 E o cross, foi s um showzinho ou vai continuar?
 Vou continuar. No sei at quando, mas vou  respondeu Felipe com firmeza.
 At o dia em que derrotar o Rato nas pistas?
Felipe no respondeu logo, precisou de mais refrigerante.
 At l, talvez. Mesmo que demore.
Dbora apertou-lhe o brao, transmitindo-lhe confiana. Ele estava precisando de algum, fora da famlia, para lhe dar fora.
Ao sairem do Vago, Dbora conduziu Felipe a seu carro: esporte, azul-metlico, beleza.
  esse? Que mquina!
 Levo voc para casa.
 No  preciso, Dbora. Vou de nibus.
 Entre, ser um prazer.
O carro de Dbora estacionou diante do BOX DOS MOTOQUEIROS, mas Felipe no desceu logo. Ficaram ouvindo pelo rdio um som lento, romntico, mais antigo, que ela
s vezes preferia. A noite, que estava boa, ficou melhor. Pela primeira vez depois da briga com Rato esqueceu os azares todos.
E mais:
 No v embora sem me dar um beijo  Dbora exigiu.


20.

 Quem era a moa do carro?  perguntou tia no dia seguinte.
 A senhora viu?
 Sempre dou uma olhada na rua antes de passar a chave na porta da loja.
 Chama-se Dbora, conheci no Vago.
 Voc foi no Vago?  ela exclamou, surpresa.
 Pensava que nunca mais pusesse os ps l, mas fui. E no me arrependi. Tudo encaixou.
 Fez muito bem, o jeito  enfrentar  aprovou a tia. Mas me conte: a tal Dbora  boa garota?
 Muito bonita e educada. J esquiou na neve...
 Quer dizer que  rica?
 Aquele carro  dela, ganhou de presente. Mas no pense que  cheia de panca,  at muito simples. A gente v e gosta.
Mas qual a mulher que no  curiosa quando se fala de amores?
 Joyce estava l?  quis saber Lola, acesa.
 Estava.
 E ela viu vocs???
 Viu  respondeu Felipe.  No tirou os olhos quando danamos. Mas se quer saber, no senti nada.
Clvis aproximou-se com a notcia:
 Tem uma cidade a, nem sei qual, que programou uma corrida de motocross entre as comemoraes de aniversrio da fundao. Topa?
 J topei. Pra quando?
 Semana que vem.
 Pode me inscrever  disse Felipe indo para o quarto.
Clvis estranhou: que havia com F?
 Parece que ele saiu do baixo astral  observou.
 Arranjou uma namorada  explicou Lola.  Agora, sim, tudo vai bem.


21

A corrida de cross comemorativa da fundao de uma pequena cidade, prxima ao Paran, foi a primeira de uma srie de provas avulsas que Felipe disputaria. Seus concorrentes
no eram muito experientes, mas valeu correr sob uma chuva fina numa pista enlameada para aprimorar o equilbrio. Advertido pelo tio, deixou os mais afoitos se precipitarem
na frente. No deu outra, caram quase todos. Resultado: Felipe venceu a primeira bateria folgadamente. Na segunda, um dos concorrentes resolveu usar a cabea, tambm
no se precipitou, e venceu a bateria. Mas no cmputo das duas Felipe fez mais pontos e ganhou a prova.
 A turma era fraca, mas foi timo correr com chuva ponderou Clvis.  Isso acontecer mais vezes.
A partir da, enquanto aguardava oportunidade nos campeonatos, Felipe no perdeu nenhuma corrida avulsa que aparecia, quase sempre em pequenas cidades do interior.
No venceu todas, claro, mas em cada uma aprendia novos macetes para se firmar como um corredor de cross para ningum botar defeito.
Dbora acompanhou Felipe numa dessas corridas, quando ela conheceu Clvis, Lola e Tuta. Todos gostaram muito dela.
 Sua namorada  gente fina  disse-lhe o tio.
  muito bacana  acrescentou Tuta.  E parece estar gamada por voc.
 Voc acha?  perguntou Felipe.
 Est na cara, garoto! Precisava ver como ela sofreu durante a corrida! Se voc no ganhasse, ela ia ter uma coisa.
O amor de Dbora por Felipe tornou-se coisa sabida nas pistas de cross, nas lanchonetes que freqentavam, e no Vago. Tanto que, certa noite em que ela circulava
entre as mesas da danceteria,  procura do namorado, algum lhe bloqueou a passagem acintosamente.
 Precisava lhe dizer uma coisa.
Era Joyce, meio descontrolada.
 Dizer a mim? Quem  voc?
 Voc sabe perfeitamente quem eu sou. Oua...
 Fale depressa que estou esperando uma pessoa.
  justamente sobre essa pessoa que quero falar.
 Ento desembuche.
 Felipe. Voc se engana se pensa que est apaixonado. Ele ainda gosta de mim  disse Joyce como se cuspisse as palavras. Tensa.  Perde seu tempo, queridinha.
 Estou aproveitando meu tempo muito bem. Agora saia da frente que seu ex vem vindo.
Joyce quis dizer mais alguma coisa, mas perdeu o pique e deixou Dbora passar, j com cara de arrependimento: fizera um papelo.
Mas Dbora, dez passos alm, vendo Felipe que entrava no Vago, perguntou-se, apesar do despeito de Joyce, se no havia alguma verdade, ou toda, naquilo que ela
dissera.
A noite, porm, foi muito curtida e alegre.




22.

O
        cursinho teve incio e Felipe passou a freqent-lo todas as manhs. O retorno  escola no foi chato; se no se preparara o suficiente, ao menos ganhara
maturidade e talvez graas ao cross uma capacidade maior de concentrao. No ficava, como antes, dispersando a ateno nas conversas e gracinhas dos colegas. Aprendera,
finalmente, que entender era mais prtico que decorar. Assim no precisaria gastar tempo reestudando as lies, o que prejudicaria os treinos. Clvis e Tuta estavam
decididamente empenhados em torn-lo um craque e precisava aproveitar a boa vontade deles.
Quanto s corridas avulsas, iam bem. Correra at na areia, no Guaruj, vencendo uma e perdendo outra. No interior, s no chegava em primeiro quando a mquina quebrava.
Mas eram vitrias que no repercutiam na capital, apenas somavam experincia.
Nesse perodo, o pior de tudo era ler os jornais e tomar conhecimento dos xitos do Rato. Pelo nmero de pontos j obtidos, o Continental estava no papo. Ele deixaria
de ser estreante ou novato para entrar na galeria dos cobras. Falava-se que ainda seria o campeo brasileiro.
O namoro de Felipe com Dbora prosseguia numa boa. Namorar uma garota que estava sempre de bom-humor, que dividia despesas e ainda possua um carro daqueles era
superlegal. Mas... Esse mas era Joyce, que no conseguia esquecer. Tentara at transformar o amor em dio, porm no funcionara. No havia um dia em que no pensasse
nela. As vezes, via-a no Vago, danando com o Rato, e sentia aquilo que os mais velhos chamavam de dor-de-cotovelo. No entanto, observava, ela no se mostrava
feliz, sem o tch e a luz dos outros tempos.
Quem estava sempre de olho nele e dava conselhos era a tia.
 Trate bem essa Dbora. Outra igual voc no vai encontrar mais.
Era sensato, mas sensatez tem algo a ver com amor?
Certa manh, Felipe voltava do cursinho, quando o chamaram. Voltou-se: Joyce. As pernas tremeram.
 Como vai, F?
 Assim, assim.
 Soube das corridas que tem ganho. Voc  mesmo dos bons.
 Que nada! S ganho de estreantes, caras que nunca disputaram campeonatos  disse Felipe.
 Modstia! Todos sabem que em Ribeiro Preto ganhou de duas feras!
 Como soube? Nenhum jornal deu.
 Quando a gente quer, sabe de tudo  garantiu Joyce.
Felipe respirou, belisou-se: verdade, estava conversando com Joy!
 Uns e outros  que esto com a bola toda.
 Sandro? Para mim ele no  melhor que voc.
 S voc que pensa assim. Como vai o namoro?
Pergunta direta que Joyce no gostou.
 Mais ou menos. E voc com a Dbora?
Responder o qu?
 Ela  tima.
Ficaram a se olhar, como se um deles tivesse perguntado onde ficava a rua tal e o outro no soubesse explicar.
 Um dia a gente se cruza  disse Joyce.
Ela j ia embora?
 Joy?
 O qu?
 Nada  respondeu Felipe.
 At, F  despediu-se Joyce, tomando o seu caminho.


23.

Felipe, no quarto, lia uma revista especializada, quando deu com isso: RATO VENCE O CONTINENTAL MOTOCROSS. Numa foto, o campeo com aquele bluso de couro preto,
marchetado, recebia um beijo de Joyce. Sob a foto, esta legenda: O melhor trofu do campeo: o beijo da namorada. Jogou a revista para cima do guarda-roupa. Mas
o sofrimento teve repeteco:  noite, com Dbora, no Vago, foi obrigado a assistir a uma homenagem ao Rato, com palavrrio, oba-obas e tudo o mais. Joyce certamente
estava l, enturmada, chique e bonita. Desde que levara a surra, foi aquela para Felipe a pior noite no Vago. Pensou at em sair da danceteria, mas seria fugir
da raia. Depois, Dbora, camaradona, no tinha muito a ver com aquilo. Engoliu mais essa.
Em casa, os tios e Tuta, para no aborrec-lo, evitaram falar do campeonato, mas Felipe recusou proteo.
 Viram quem ganhou o Continental? O Rato. Melhor assim.
 Melhor?  estranhou o tio.
 Prefiro ganhar de algum que tenha muitos trofus. Falei.
Ningum comentou nada em sua presena, mas quando Felipe foi para o quarto, Clvis disse:
 No gostaria que tivesse uma decepo. O Rato j  um craque e ele, um novato. Dificilmente se encontraro algum dia.
O certo  que no dia seguinte, na pista de treinos, Felipe disparou como um raio. Estava sozinho, mas imaginando que o Rato corria com ele, ora  frente, ora emparelhado,
ora atrs. Por fim, cansado, parou perto de Clvis e de Tuta. Havia, porm, outra pessoa perto. Um motoqueiro com sua mquina japonesa, todo de preto e aquelas
placas metlicas. Um que sorria.
 Treinando um bocado, escoteirinho?
Era o Rato, o maldito Rato.
 Por hoje chega  disse-lhe o tio.  Traga a moto.
Tuta precipitou-se em pegar na mquina de Felipe.
 Desa, F. Nada de encrencas.
Mas Felipe no saiu de cima da moto. O que o Rato queria? Estava para o que desse e viesse.
 O que diz de um tira-teima?  sugeriu o de preto.  Dez voltinhas para esquentar.
 Vamos ns  berrou Felipe, irritado, mas ainda sem saber se o desafio partia de uma pessoa de carne e osso ou de uma miragem.
Clvis avanou e segurou a 180 pelo guido.
 Besteira! Pegue seu caminho, Rato!
Felipe suplicou:
 Vou mostrar pra ele quem  o bom, tio.
 Deixe o escoteirinho correr, Clovo  disse Rato.  Com os campees  que se aprende.
 Eu tambm sou um campeo!  bradou Felipe.
 timo, sero dois campees na pista  disse Rato.  Dez voltas e ainda deixo voc sair na frente.
Clvis perdeu a pacincia:
 Deixe de provocaes, seu marginal! Se algum dia vocs se defrontarem ser numa pista de verdade, em campeonato. E nessa ocasio ser bom levar a briga a srio,
do contrrio entra pelo cano.

E sem mais palavras, Clvis e Tuta puseram a moto na caminhonete.
  uma pena  comentou o Rato, ligando sua mquina. Queria ensinar certas manhas para voc, escoteirinho. Treinado por esses coroas voc no ir muito longe.
Os trs fizeram que no ouviram. J na volta, Felipe, de cara amarrada, fez uma queixa:
 Vocs deviam ter me deixado.
 Tudo tem seu tempo  disse o tio.  Com toda essa raiva, voc no poderia controlar a mquina. E, alm do mais, sejamos francos: ainda no est no ponto para enfrentar
o Rato.
 J sei tudo de motos, tio.
 No diga isso, F. A gente nunca chega a saber tudo de coisa alguma. At a morte, estamos sempre aprendendo.
Clvis era meio sbio, melhor concordar com ele. Mas fora bom o encontro. Felipe acabara de tomar mais uma dose de dio, uma colher cheia, fortificante amargo que
lhe daria mais garra na ocasio do grande pega.
Chegaria esse dia  o do grande pega???


24.

Rato entrou na lanchonete onde costumava marcar encontro com Joyce. Chegou atrasado como sempre, ela esperando-o numa das mesas, impaciente.
 Se demorasse mais um pouco, eu ia embora.
 Desculpe, gata,  que tive um encontro com um amigo seu.
 Que amigo?
Um olhar, um sorriso:
 O escoteirinho.
 Felipe? Onde foi isso?
 Na periferia, onde uns caras vo treinar. Estava com o tio e um mecnico.
Joyce, ansiosa:
 Vocs se falaram?
 Fiz um desafio para um pega  disse o Rato.  Daria at uma vantagem, uns cem metros ou duzentos...
Ela mexeu-se na cadeira:
 E ele?
 O escoteirinho quis bancar o valente, topar, mas os outros no deixaram que ele corresse. Deve ter dado graas a Deus.
Joyce no gostou do que ouviu: por que o desafio? Molecagem.
 Voc, quase veterano, agiu mal. Felipe comeou a correr outro dia. Por que no desafiou o campeo brasileiro? A, sim, eu daria parabns.
Rato no costumava ser macio nem com as garotas.
 Fiz o que pintou no momento. Ele merecia  esbravejou.
 Baixaria!
 E no venha me dizer o que devo ou no fazer. No admito isso.
 Fale baixo, tem gente olhando, Sandro.
 Que olhem!
Joyce calou-se, mas no resignada. Desde que vencera o campeonato, Sandro ficara ainda mais cheio de si, dono do mundo. Se no gostava de algum, pisoteava. Queria
vencer no apenas com a moto, usava tambm os punhos e os ps. Era o seu jeito de impor personalidade.
 Vamos embora  disse Joyce.
 Cedo, ainda. Est chegando gente e quero exibir minha mina. Gosto que me vejam com voc.
Joyce viu a o pretexto para um rompimento.
 No sou manequim de vitrina  rebateu. E fazendo meno de levantar-se:  Pra quem fica, tchau.
Rato no concordou:
 Vai ficar, sim, e numa boa.
Joyce, decidida:
 Sabe de uma coisa, campeo? Esse  o momento pra gente acabar tudo. Voc j me enjoou.
 Ningum vai acabar nada  ele garantiu, em voz baixa e firme.  Relaxe.
 Sandro, a gente no se sente mais, nosso namoro est todo grilado. Vamos pr um ponto-final.
Rato no se perturbou:
 Pra mim est como antes. No vejo motivo.
A Joyce levantou, resolvida.
 Pode estar bem pra voc, pra mim, no. Siga o seu caminho que eu sigo o meu. T?
Ele continuava impassvel:
 No t, no. Se voc levantar daqui, se me chutar, eu dou uma de Zorro, me vingo.
 Vinga, como?
Assim:
 Procuro o escoteirinho e dou a maior surra nele, dessa vez pra dar hospital.
Joyce sentou-se novamente.
 Mas o que Felipe tem com isso? No tenho mais nada com ele!
 Tem, sim, tem peninha. Por isso vai deixar tudo como est. No vai?


25.

Felipe j estava cansado das corridas avulsas, que no davam cartaz, ansioso por coisa melhor, quando Clvis chegou  oficina com um sorriso imenso, maior que o
rosto.
 Boas notcias, F! Venho da associao.
 Quais, tio?
 Voc vai correr.
 Outra avulsa?  perguntou Felipe, sem entusiasmo.
 Nada de avulsas. Vai disputar um campeonato. Pra valer.
Tuta, que estava por perto, aproximou-se.
 Ouviu essa, F?
 Sero sete provas numa s bateria, para estreantes e novatos que j subiram ao pdio  esclareceu Clvis.  A primeira e a ltima provas sero realizadas na capital.
As outras cinco, cada uma em uma cidade. E voc j est inscrito.
Felipe fez uma pergunta que s poderia ser esta:        -
 O Rato vai nessa?
Clvis jogou um balde de gua fria:
 Ele deve estar na mira do campeonato nacional. Subiu de turma aps o Continental.
 Uma pena, tio.
 Uma sorte, devia dizer. Ainda no est pronto para ele.
 Nem tudo pode ser perfito  disse Felipe.  Quando  a primeira prova?
 Ainda este ms.
Aquela noite Felipe correu para o Vago e danou com Dbora como um maluco. O pessoal fez roda, aplaudiu, pediu bis. E o melhor era que Joyce e o Rato viam tudo,
pertinho, de uma mesa de pista, ele tomando cerveja.
 Seu escoteirinho est eltrico  comentou Sandro.  Ser que ganhou um apito novo?
 Eu sei por qu  disse ela.
 Por qu?
 Est inscrito no prximo campeonato de cross.
Susto de Rato e um aperto no brao de Joyce.
 Como sabe que ele est inscrito?  perguntou Rato apertando o brao de Joyce com fora.
 Pare com isso!  reclamou ela.
 Vamos! Responda!  insistiu o rapaz.
 A tia dele me disse  esclareceu Joyce.
O Rato tomou um gole de cerveja, pensativo. Como fazer para acabar com aquela alegria? Outro gole.
 As inscries j se encerraram?  perguntou.
 Isso no sei.
Sandro no falou muito o resto da noite, ruminando idias. Mais tarde foi telefonar e voltou logo, com mais sede e sem tirar os olhos de Felipe, reinando no meio
da pista. Joyce tambm olhava o par de roqueiros, mas sem dio. Apenas desejava estar no lugar de Dbora.


26.

Felipe estudava no quarto, a cara dentro de um livro, quando Clvis e Tuta entraram, empurrados por alguma novidade. E no parecia ser notcia boa, estava nos olhos
e no jeito deles.
 Uma notcia meio chata, F...  comeou Clvis.  Conte pra ele, Tuta, voc que esteve na associao.
 , eu estive l e...
 Rejeitaram minha inscrio. Foi isso?
 Por que rejeitariam?  disse Clvis.  Seu nome foi muito bem recebido. Acham voc uma promessa...
 Ento, qual  o grilo, tio?
Clvis e Tuta trocaram olhares. Quem falou foi o gordo.
 Aquele selvagem, aquele delinqente...
 O Rato?
 Sim, o Rato.
 O que ele fez?  perguntou Felipe, angustiado.
 Ele... ele se inscreveu.
 O qu?
 Ele vai correr  confirmou Clvis.
Enigma.
 Mas o senhor no disse que os cobres no participariam?
 Disse, F. No  um campeonato pra ele. Est mais acima. Acho que se inscreveu s pra esnobar voc, humilhar... E a concluso:  Eu e Tuta achamos que para evitar
baderna devamos cancelar sua inscrio.
Felipe deu um berro do calibre de um urro de leo.
 Cancelar a inscrio???
 Pra no melar o campeonato... no dar rebu.
  por a  atalhou Tuta.
Lola, que ouvira o urro, entrou no quarto.
 No quero cancelar coisa alguma  prosseguiu Felipe.   minha chance!
 Calma, Felipe, vamos pensar  disse Clvis.
 J pensei, tio, est decidido.
Clvis desmanchou a cara de preocupao.
 Est certo. No retiraremos a inscrio. A sorte est lanada. Vamos em frente.
Felipe voltou-se para Lola:
 Tia, eu e o Rato vamos disputar um campeonato.
Lola abraou-o.
 Era o que queria, no?
 Era.
 Ento, v  luta. Tem muita gente pra lhe dar uma fora. E no caso de perder...
Felipe riu:
 Quem disse que vou perder? Tirem isso da cabea. Acham que deixaria escapar essa oportunidade? Eu?


27.

J
oyce estranhou o bom-humor de Sandro, ambos outra vez na lanchonete do Shopping.
 O que aconteceu de to bom para estar rindo  toa?
 E aconteceu mesmo, gracinha.
 Coisa do cross?
Ele:
 Vou participar do Fora Livre Motocross. Um vale-tudo.
Joyce, entendida, estranhou.
 Pensei que se inscrevesse no paulista ou no nacional, depois do ltimo campeonato. Vai dar um passo atrs?
 Trata-se de uma satisfao particular, um castigo que quero aplicar a algum.
Joyce adivinhou, mas fingiu que no.
 Que algum?
 O seu escoteirinho. Ele no est inscrito? Vai ser divertido.
Joyce no poderia estar de acordo.
 Disputar um campeonato s para esnobar uma pessoa... No bastou a surra que lhe deu?
 Bastaria, se ele no tivesse aquela crista. Apanhou no Vago e agora vai apanhar nas pistas. Barba e cabelo. Servio completo.
 Voc no est procedendo como quem leva o cross a srio.
 Os cobres como eu merecem um refresco de quando em quando  disse o Rato.  E tem mais: quero que assista s provas.
 No vou assistir  afirmou Joyce.
 Se no for, apronto uma e ele quebra a perna, t?
Joyce ficou quieta, mas fervendo por dentro. Aquela transa fora da admirao ao dio muito depressa. Se arrependimento matasse... E no havia jeito de escapar
dele sem prejudicar Felipe.


28.

Felipe saa do cursinho quando viu Joyce, apagada, sem o tch.
 F, precisamos conversar.
 Qual ?
 Sandro vai disputar o Fora Livre.
 Sabia.
Sem olhar nos olhos, Joyce prosseguiu:
 Tudo para deixar voc numa pior, fazer gozao. Se eu estivesse em sua pele, caa fora.
 Obrigado pelo aviso e pelo conselho, mas me inscrevi antes e no vou cair fora. E pode dizer a ele para se cuidar.
 No posso dizer, ele no sabe que vim aqui. Se soubesse, pobre de mim.
 O que ele faria?
Quase uma confisso:
 A gente nunca sabe do que Sandro  capaz. O que ele tem na cabea no  miolo, no.
Felipe olhou para a rua.
 Desculpe, mas paremos por aqui. Dbora chegou.
E de fato Dbora encostava seu carro e acenava. Joyce viu quando ele beijou-a. Pensou que fosse chorar l, na calada, cercada de alunos do cursinho, e para que
isso no acontecesse, disparou numa carreira pela rua.


29.

No carro, Dbora perguntou (tinha classe, no demonstrou cime):
 O que Joyce queria?
 Avisar que o Rato se inscreveu no Fora Livre.
 S avisar?
 Pediu para abandonar o barco. S onda. O que ela tem com minha vida?
Para Dbora no havia mistrio.
 Certamente arrependeu-se de trocar voc pelo Rato. Ainda est parada em voc.
 No acredito.
 Pode apostar.  gamao mesmo. Disso eu entendo.
Felipe viu uma tabuleta em um edifcio e pediu:
 Pare aqui.
 No quer que o leve pra casa?
 Lembrei de uma coisa, Dbora. A gente se v no Vago, s nove.
Felipe desceu do carro e voltou ao ponto onde vira a tabuleta. Subiu uma escadaria, dessas que tem nos prdios velhos sem elevadores, e chegou a um salo, recortado
de janeles. Sobre um tablado, cercado de cordas, dois pugilistas estavam em ao. Era uma academia de boxe. Ficou observando, alm da luta, a atividade de alguns
alunos nos sacos de areia e aparelhos. Muita agitao e ruidos de pancadas.
O dono da academia, rondando por ali, era um ex-campeo de peso-leve, famoso no seu tempo, mas j de cabelos brancos, coroa, pesado. Muito simptico, estimulando
alguns alunos e corrigindo outros, circulava por todo o salo, a sorrir e a cumprimentar pessoas. O pai de Felipe vira-o lutar muitas vezes e jamais esquecera suas
qualidades de bailarino.
 Quanto se paga aqui por ms?
 Voc i  amador?  perguntou o proprietrio da academia a Felipe.
 No, esse no  meu esporte. Quero apenas dar murros nesses sacos para desenvolver os msculos.
O ex-campeo riu.
 Por qu? Anda com gana de algum?
 Tem um folgado a que vive me ameaando. Cismou com minha namorada. Sabe como  que .
 Quem entra aqui  para aprender boxe. No seria melhor umas aulinhas?
 J estou aprendendo muita coisa  disse Felipe.  Meu caso  dar murros. Meia horinha por dia em horrio de menor movimento.
O ex no era desses tipos que costumam dizer no.
 Venha entre duas e trs. Pode usar aqueles sacos e aparelhos todos. Fao preo de liquidao.
 J vi que o senhor  do peito. Amanh eu pago e comeo. Meu nome  Felipe.


30.

 tarde, Felipe teve uma reunio com tio Clvis e Tuta. A pergunta-base era esta:
 Com que mquina vou disputar?
 Com a que se ajeitar melhor.
 Minha 180 serve?
 Por que no?
 Mas a do Rato  muito mais possante.
Explicao do Tuta:
 Nos campeonatos de fora livre, marca e cilindrada no ganham o jogo. H muitos obstculos no percurso. O que importa  a raa, a garra, a marra.
 E nem daria tempo de se familiarizar com outras motos  ponderou Clvis.  Voc j fez bonito com sua mquina e vai fazer outra vez.
A deciso agradou Felipe.
 Ento vou correr com minha prpria motoca? Posso mesmo?
 Pode e deve  disse o tio.  Mas no se preocupe. O Tuta vai colocar nela um par de asas.
Risos.
 Quando  a primeira corrida?
 Domingo.
 J?
 Precisamos treinar todos os dias  disse Clvis.
 Mas depois das trs  lembrou Felipe.  s duas tenho compromisso.
 Combinado.


31.

As notcias voam. Naquela noite, no Vago, todos j sabiam que Felipe e o Rato iam disputar o mesmo campeonato. Sandro devia ter espalhado para ter mais pblico
na pista. L estava ele, mais desinibido que nunca, ao contrrio de Joyce, desanimada.

Lembrando-se do rival, Felipe comeou a esmurrar o saco de areia, na academia.
 Como , no vai calar luvas?
 Se a tal pessoa quiser me quebrar a cara, no vou ter tempo de pr as luvas, vou?
 Isso , mas me deixe ensinar algumas coisinhas. Murro  uma coisa, empurro  outra. Voc est empurrando esse saco. Murro precisa ser seco: pum!  e esmurrou,
 assim. Uma pancada firme, em cheio. Tente.
Felipe imitou o soco do ex-campeo: um soco rpido e forte.
 Melhorou?
 Plante-se melhor no cho. Vamos.
Felipe repetiu a dose, bem plantado.
 Assim?
 Est bem, mas por que est treinando s com a direita? A gente no tem dois braos? Aprenda a usar a direita e a esquerda. Se o tal for canhoto, voc se azara.
 Nada como um craco para ensinar a gente.
 Mas no deve treinar s com o saco de areia. Pule um pouco de corda, como aquele l  apontou.  Agilidade sempre ajuda. Bem, continue. s vezes eu passo pra
dar uma olhada.
Algum tempo depois, com os braos doendo, Felipe j estava treinando na pista. O Rato no apareceu. O prximo encontro dos dois seria na largada da primeira corrida.
Em casa, Lola esperava Felipe com uma carta que acabara de chegar. Devia ser da famlia. No era.

Felipe levou a carta para o quarto e releu-a muitas vezes. Com todo amor. Afinal, se ela o amava por que... No entendia. Confuso, no sabia se se concentrava nela
ou na corrida. Na sala, ligou a tev: Rato dava entrevista em um programa esportivo.
 Esse campeonato  moleza  dizia.  Meu objetivo  disputar o nacional. Mas ouam esta aqui: esto todos convidados para uma festa de arromba. Sorry, fzocas,
mas vou ficar noivo. No duro. E, por enquanto, a todos aquele abrao.
A cuca de Felipe pifou. Querido F... E agora essa notcia? S pirando.


















O grande pega

32

PRIMEIRA CORRIDA

As vinte motos estavam emparelhadas  espera da partida. As arquibancadas cheias  era o Rato que j atraa pblico. Suas lorotas e seu blablabl colavam.
 Lembre-se  Clvis advertira a Felipe.  S haver uma bateria. No haver segunda chance na mesma corrida.
Felipe fixou os olhos nos avisos: trs minutos, dois minutos, um minuto. Que era aquilo? Estava tremendo? Estava. Irritava-o ouvir a galera gritar em coro o nome
do Rato. Desde a chegada vira-o uma nica vez, de relance, todo de preto com as placas metlicas, e a arrogncia de quem esquecera as preocupaes em casa. Meio
segundo. Em que ponto das arquibanadas Joyce estaria?
E... liberaram o starting-gate. A sada!
Diabo, Felipe saiu mal como se estivesse distrado, logo ficando encaixotado entre outras motos. Tentou escapar do sanduche pela direita e pela esquerda, mas sem
vez. Tudo o dificultava, inclusive o rock jorrando sobre a pista, a impor um ritmo que no conseguia acompanhar. Em que lugar estaria? S havia uma certeza: Rato
no se deixara deter pelo bolo e saltara na frente, livrando distncia.
Felipe no se saiu bem nos primeiros king-kongs, mas outros, pior que ele, afocinharam. Continuava, no entanto, sem espao para desgarrar, e ainda inibido, o desempenho
travado pela emoo. Prudente demais, fazia tudo certo, como se seguisse a cartilha do cross, no se aventurando a executar nenhuma proeza. Nas prximas curvas,
caprichou, o corpo todo inclinado, e, sem desacelerar, conseguiu ultrapassar duas motos. Aos poucos sentiu-se mais concentrado, olhos abertos, mas j no tenso como
nas primeiras voltas. A calma  irm da apatia, porm a tenso leva ao descontrole. Nem calmo nem atabalhoado, era a medida. Conselhos de tio Clvis e de Tuta
que lhe ocorriam naquela confuso. Passou por mais um.
Joyce, na arquibancada, mordeu um sanduche. Precisava mastigar alguma coisa. Uma amiga, a seu lado, perguntou:
 Por que o nervosismo, se o Rato est na frente?
E estava. Vinha liderando desde a terceira volta. Fazia uma corrida folgada, um passeio, como se esperava do favorito.
Felipe viu  sua frente um motor pifar e em seguida duas motos se chocarem. Ele e o de nmero 11 saltaram juntos um difcil obstculo; o outro ficou, miau.
Um alarido, o pblico notou Felipe, reconheceu-o do campeonato de estreantes e novatos, que vencera, e comeou a lhe dar apoio. Os alto-falantes mencionaram seu
nome:
 Vejam Felipe Mota em quinto lugar!  um novato de futuro.
Quinta colocao! No era mau. Felipe esquentou mais. Corria como se os guardas de trnsito estivessem atrs dele, na tarde da escadaria. Ps de lado as precaues
excessivas. Um pouco de loucura ajudava, O quarto colocado, assustado, errou na troca de marcha  emparelharam. Correram uma volta inteira colados. Nessa disputa
aproximaram-se bastante do terceiro, que montava uma tremenda mquina. A galera de olho na luta, vibrou. Felipe teve a impresso de ouvir a voz do tio: Use a cabea,
F, e voe sobre o king-kong, como fazia nas avulsas. A mquina colaborou: belo salto! Onde estava o parceiro, o que estava em quarto lugar? Ficara para trs. Com
o impulso aproximara-se ainda mais do terceiro colocado, que ao acelerar, para fugir do assdio, derrapou numa curva, atrapalhou-se, ziguezagueando, e acabou perdendo
a posio para Felipe.
 Felipe Mota j  o terceiro!  bradava o locutor.  Vamos l, garoto!
O que ia em segundo subitamente deu tudo para alcanar o Rato e chegou a emparelhar com ele. Mas faltou-lhe categoria. Felipe viu o piloto e a moto voando, cada
um numa direo. Agora, ele e o Rato, este com os olhos no retrovisor. To preocupado, pisou na bola, escorregou, enquanto Felipe aproximava-se, ignorando os obstculos.
Explodiram as reaes do pblico, dividido entre o dolo e o jovem e quase desconhecido desafiante. Que pega!
As duas ltimas voltas: Um erro e babau, pensou Felipe, vendo Sandro pouco  sua frente, tentando inutilmente ganhar espao, pois o que conquistava nas retas,
perdia nas curvas. L vou eu! Era Felipe saltando uma cratera. O Rato tambm era bom de pulo e continuou liderando, mas, atrapalhado por um retardatrio, permitiu
que o adversrio emparelhasse.
Estamos juntos! Agora, tudo ou nada!  a ltima! A mquina de Felipe no dava mais que aquilo. Era o limite. S poderia ganhar na sabedoria ou no azar do outro.
Mas o Rato, tarimbado, no parecia disposto a cometer erros. Continuaram emparelhados nas curvas e saltos.
 Quem vai ganhar? Impossvel prever!  berrava o locutor.
A galera ergueu-se nas arquibancadas. Lola olhou para o lado, no quis ver. Clvis e Tuta correram para a linha de chegada. Joyce encolheu-se toda e Dbora perdia
a voz de tanto gritar.
Os dois colados, os guides quase se tocando, ambos um vulto s na poeira que levantavam. Felipe ou o Rato? A...
 O que aconteceu?  gritou Joyce, apavorada.
Felipe viu-se arremessado para fora da pista. Levantou-se, mas a moto estava longe. O Rato ganhara. No! Ele tambm fora atirado  distncia e, mancando, tentava
erguer sua pesada moto. Conseguiu, mas s rudo, ela no pegava. Felipe levantouse, ps a 180 em posio, atordoado. O que adiantava? Muitos j cruzavam a chegada.
Ele e o Rato no marcariam pontos. Todo sujo, o corpo doendo, prosseguiu lentamente. O Rato, que afinal fizera a moto pegar, emparelhou-se com Felipe.
 Voc a, gostou do tombo que lhe dei?
 Que histria  essa de voc a? Sou o escoteirinho. No reconhece?
No box, Felipe era esperado pelos tios, Tuta e Dbora. Joyce estaria por perto? Tirou o capacete.
 O que achou da corrida, homem gordo?
Clvis respondeu com uma gargalhada, engrossada e prolongada por Tuta e pelas mulheres. Riam como se tivessem assistido a um filme cmico. Outros pilotos e mecnicos,
prximos, aderiram ao coro das gargalhadas. Jamais houvera no motocross uma derrota to festejada!
 Foi tudo timo, F!  exclamou o tio.  Voc no queria ficar atrs do Rato e no ficou.
 Ele disse agora que me deu o tombo!
 Deu nada!  garantiu Tuta,  Foi acidental! Vocs tinham a mesma chance!
O melhor: o beijo de... Dbora. E de tia Lola, to entusiasmada!
Outros o abraavam como se tivesse vencido. Mas foi um reprter de uma revista especializada que sintetizou o pensamento geral:
 A atrao do campeonato vai ser o pega entre Felipe e o Rato. Aguardem.
Felipe voltou para casa no carro de Dbora, ela querendo dizer-lhe uma coisa:
 Sentei perto da Joyce e a observei o tempo todo.
 .
 Torceu doidamente por voc.


33.

SEGUNDA CORRIDA

Felipe esmurrava o saco de areia, na academia, pensando na corrida e no que Dbora dissera, honestamente, sobre Joyce. Torceu doidamente por voc. Se era verdade,
por que continuava com Sandro? Que ela se sentira atraida por ele, um cobro do cross, querido das garotas, entendia. Mas j que a onda passara, a iluso constatada,
o que a impedia de dar uma tesourada no namoro?
 Est indo melhor agora  observou o ex-pugilista.  Seus socos j tm mais punch. Mas no fique to duro e parado assim. Mexa-se mais para no se tornar alvo fcil.
Veja aquele l  disse apontando para o tablado, onde dois alunos boxeavam.
 Observe como tm ginga, um vai-no-vai. Assim que se luta. Felipe foi para o banheiro, tomou uma ducha fria e saiu da academia. Ao descer do nibus, perto do BOX
DOS MOTOQUEIROS, viu-a  distncia. Joyce, correndo ao seu encontro!
 Voc no se machucou na queda?
 Arranhei a perna. Mas o que faz aqui?
 Vim ver voc.
A hora do esclarecimento.
 No gosta mais do Rato, no  isso?
 Falou. Acho que jamais gostei. O cartaz dele e o seu cime fizeram tudo.
A ltima frase antes da reconciliao:
 Ento por que no d um tchau pra ele?
Joyce embaraou-se, mas saiu-se com esta:
 Voc est namorando a Dbora, uma boa moa, melhor que eu. No quero que a deixe por minha causa.
 Ora, Dbora compreender...
 Mas ficaria muito magoada. E ela no merece.
Vendo que Joyce queria afastar-se, Felipe tentou det-la:
 Vamos conversar melhor. H uma lanchonete a, dobrando a esquina.
Joyce escorregou:
 No posso ir, estou com pressa. Voc esteve o fino domingo. Felicidade para a prxima, em Campinas.  E, sem mais papo, disse Shazam! e desapareceu.
Os pulos de alegria, os rojes foram adiados. Aquela tarde Felipe no quis treinar, pretextando dores no corpo. Precisava de muita paz e da palavra de uma pessoa
madura, que entendia da vida. Essa pessoa sbia estava lavando pratos.
 Tia, Joyce veio falar comigo.
 No diga! O que ela quer? Namorar com voc outra vez?
 Foi o que pensei, pois disse que no gosta mais do Rato. Mas apesar disso no vai romper com ele. D para entender?
 Joy pode ter procurado voc por estar com cime da Dbora.
 No seria outro motivo para voltar comigo? Ela at falou bem da Dbora, disse que no quer mago-la.  um enigma ou no ?
 Vai um caf?  ofereceu Lola, como se precisasse de tempo para pensar.  Fiz agora.
Felipe experimentou.
 Hum, est timo!  Mas segurou o assunto:  Como a senhora explica, tia? O que h com a Joy?
A intuio de Lola respondeu:
 Para mim tem coisa feia a. Ela deve estar presa ao Rato por algum motivo. Mas no pergunte o que  que no sei.

Campainha. Joyce abriu a porta do apartamento e no gostou do que viu. Era o Rato.
 O que veio fazer aqui?
 Estava passando pela rua.
 Nunca convidei voc para entrar. Saia. Mame no sabe nada do nosso namoro.
 J devia saber  disse o Rato empurrando a porta e entrando.  Um namorado famoso como eu no se esconde da famlia. Devia ter um big poster meu aqui na sala.
Qualquer garota faria isso.
Uma voz l dentro:
 Quem est a, Joy?  era dona Selma, a me dela.
 Eu  respondeu Rato com firmeza.
Imediatamente uma mulher de meia-idade, vestida de modo simples, apareceu na sala.
 Ol!  Rato sorriu para ela, pegou-lhe a mo e beijou-a, com falsa cerimnia.  Meu nome  Sandro, mais conhecido como Rato. Sou namorado de sua filha, dona. Sabia?
Dona Selma lembrou:
 Rato?! O do motocross...?
 Em pessoa!
Dona Selma era dessas que gostam de todo mundo.
 Muito honrada em conhec-lo, moo. Outro dia vi voc na tev, numa reportagem. Diziam que vai longe.
 Pode apostar que sim, minha sogra.
Olhou para a filha.
 Ento vocs so namorados? Por que no me disse nada, Joy?
 Por isso estou aqui  esclareceu o Rato.  Gosto das coisas s claras. Para mim namoro no  brincadeira. E vamos ficar noivos. At j dei a dica na tev.
A me de Joyce apontou uma poltrona  visita. Sandro sentou-se, j dono do pedao. Joyce porm no aprovava a invaso. Agora seria ainda mais difcil livrar-se dele.
 Domingo vou correr em Campinas  disse Rato.  Joyce pode ir comigo? Pode ficar tranqila. Eu a trago direitinho de volta.
Dona Selma ficou indecisa.
 Joy  que sabe...
 EIa est doidinha pra assistir  prova. E Campinas  a na esquina, sogra.
 Est certo, podem ir  concordou dona Selma.
 Obrigado. A senhora  legal s pampas.  E dirigindo-se a Joyce:  H uma lanchonete esperando por ns.
A briga entre os dois comeou no elevador.
Joyce:
 Voc no devia ter aparecido. Ningum o convidou.
 Mas a coroa me adorou! Foi com minha pinta! No percebeu?
 Ela trata bem qualquer visita.
Na rua, a continuao:
 Mas por que a bronca? Voc  ou no  minha namorada?
 J lhe disse, Sandro, quero pr um fim nisso.
 Por qu?
 Para ficar livre como um passarinho.
Rato no foi nessa:
 Quer liberdade para me passar pra trs com o escoteirinho, eu manjo. Mas faa isso, faa e vai ver.
 Ver o qu?  assustou-se Joyce.
 Por muito menos parti em dois um sujeito l da minha terra. Ainda vive em cadeira de rodas. Por que pensa que tive de sumir do interior?
 Voc j bateu em Felipe uma vez. No est satisfeito?
 Aquilo foi s uma amostra grtis. Da prxima vai ser muito pior. Escreva.
Joyce pensou em Felipe com amor. Ela no podia ser responsvel por nenhum mal que lhe acontecesse. Preferiu no discutir com Sandro.
 Mas eu no queria ir pra Campinas.
 Se sua me j concordou, qual  o grilo? Quero que me veja ganhar a prova.
 Felipe deu um susto em voc no domingo, no?
O Rato j tinha a resposta:
 Fogo de palha do escoteirinho. Mas ele fica por a.
Ao voltar de Campinas, aps a prova, Felipe, muito cansado, foi para o quarto, jogou-se na cama e dormiu. Acordou s  noite com um telefonema aflito de Dbora.
 Como  que foi tudo?  ela perguntou.
 Perdi. Fiquei em segundo.
 Quem ganhou?
 O Rato  respondeu Felipe.
Uma pausa, outra pergunta.
 Est aborrecido?
 Fiz o possvel, mas no deu. Faltou pique, viso e o resto.
Dbora ofereceu-lhe um prmio de consolao.
 Felipe, um dia desses vou levar voc  minha casa. Quero que conhea meus pais. T?
 T.
 Boa noite.
Felipe desligou o telefone e ps-se a lembrar dos lances de sua derrota. Mais uma vitria do Rato e seria quase impossvel alcan-lo. Clvis aproximou-se:
 Domingo voc vai  forra.
 Acha, tio?
 Voc cometeu uns errinhos, mas vamos sanar isso nos treinos. Agora no se fala mais nisso. O jantar est na mesa.


34.

TERCEIRA CORRIDA

Felipe procurou levar a semana descontraidamente. Raiva, s na academia, em hora certa, depois de passar a manh no cursinho. Aqueles socos no saco de areia aliviavam.
 Quero lhe ensinar um macete.
Era o ex-campeo, um amigo.
 Que macete?
 Nem sempre d para acabar com um adversrio com um nico soco. S Rocky Marciano fazia isso. Tem de aprender o um-dois. Um em cima, outro embaixo. Pam-pam. Como
uma dana, sincronizados. Assim. Veja.
O dono da academia demonstrou no saco de areia. Um-dois.
  como disparar dois tiros em lugar de um.
 Isso.
Felipe esmurrou o saco de areia: um-dois, um-dois, um-dois.
 Mais ritmo. Um-dois.
 Assim?
 Vai indo. Faa s isso hoje. Um-dois.
Era um refresco para a cuca e Felipe corria mais leve para as pistas de treinos. Certa tarde Clvis observou algo em sua mo.
 O que  isso? Machucou?
Os murros no saco de areia.
 Apenas um arranho, foi no banheiro. Escorreguei no sabonete.
 Est at inchada. Pea para Lola fazer uma salmoura.
 Certo.
No prximo encontro que teve com Dbora, no Vago, ela renovou o convite, ansiosa:
 Vamos  minha casa esta semana? O que diz na sexta?
 J falou com sua me?
 Ainda no.
A visita seria quase um compromisso e Felipe estava com a cabea cheia.
 Deixemos para a semana que vem.
 Eu sei  disse Dbora.  Voc est concentrado no domingo, no ?
 Se eu perder no vai dar mais p.
Dbora entendeu, sempre de acordo com tudo que Felipe dizia ou fazia. Ele, porm, no estava com o pensamento apenas voltado para a prova, encucado demais com a
atitude de Joyce, que o amava e recusava-o. Precisava conversar com ela, decifrar o enigma, saber das coisas, mas num terreno fechado em que no pudesse escapar.
Da a idia: ir ao apartamento de Joyce, sem aviso, decidido.
Ao chegar ao edifcio onde Joyce morava, Felipe hesitou. Mas se recuasse no se perdoaria mais tarde. Entrou sem dar bola ao zelador e apertou o boto do elevador.
Como seria recebido? Melhor nem pensar. Chegou ao terceiro andar, o dela, e nova hesitao. Tocou a campainha do apartamento e sentiu no dedo um frio que logo se
espalhou pelo corpo todo. Se demorassem para atender, pegava o elevador e desceria.
Uma mulher abriu a porta.
 O que o senhor deseja?
 Eu queria falar com Joyce.
 Ela o conhece?
 Diga que  o Felipe, um amigo dela.
A mulher foi para dentro e num instante, afobada, Joyce aparecia. Se a inteno era a de causar surpresa, conseguira. Nunca a vira to plida.
 V embora, por favor  ela disse.  Sandro vem a.
Felipe no se mexeu, indignado.
 Ento ele freqenta seu apartamento? J  de casa?
Joyce tocou nele, querendo que apanhasse o elevador.
 Vem s vezes. V, Felipe, ele disse que viria  implorou Joyce, conduzindo-o contra sua vontade.
 Seria at bom que ele me encontrasse aqui. J que no gosta dele acabariam tudo duma vez.
Joyce apertou o boto de chamada.
 No me crie problema!
 Que problema?
 Um dia eu explico.
 Explica o qu?
 O elevador est chegando.
Felipe no se conformava com aquela sada rpida.
 Acho que voc pirou, Joy. E no me empurre que no tenho medo dele.
Joyce abriu a porta do elevador.
 Entre.
Felipe no entrou, fixo no cho.
 Por que no me conta tudo de uma vez? A eu pego minha reta e no a perturbo mais. Voc  quem complica.
A me de Joyce, que ouvira vozes altas, apareceu  porta do apartamento.
 A gente se v  disse a moa.
 No conte comigo pra isso  rebateu Felipe.  Prefiro no v-la mais.
Bufando, Felipe saiu do edifcio. A resoluo estava tomada: esquecer Joyce. Seguida de outra: dedicar-se s a Dbora. Nem esperou chegar em casa, telefonou dum
orelho.
 Sou eu, Felipe. Vamos ao Vago esta noite?

Dbora apareceu no Vago bonita e disposta. Desde o telefonema percebeu que Felipe no estava legal, mas no fez perguntas. Danaram, ele com a corda toda, solto
e exibicionista. De uma das mesas, Joyce e o Rato observavam, porm s ele falou:
 Na pista do Vago at que ele  bom, mas nas de motocross sou eu o rei.
Joyce viu Felipe e Dbora encaminharem-se a uma mesa de braos dados, juntos, carinhosos. Se antes, quando os via, pareciam meros conhecidos, agora no.
 Vamos embora? Estou com dor de cabea  disse Joyce.
 Que foi? Aqueles dois a perturbaram?
 A mim? Imagine.
Rato quis saber mais:
 Ele nunca a procurou?
 Nunca  mentiu Joyce.  Est apaixonado por Dbora, no v?
Rato no disse nada, mas era astucioso demais e, como todo macho, sempre achava que havia muito de mentira mesmo nas verdades que as mulheres diziam. Mas no estava
com os nervos em descanso, preocupado com a terceira corrida do campeonato. Se a vencesse, a, sim, poderia comemorar antecipadamente, pois se tornaria muito difcil
a Felipe ou a qualquer outro alcan-lo na contagem de pontos. Apenas lamentava que dessa vez Joyce no o acompanharia; a prova seria em Ribeiro Preto, longe demais
para dona Selma permitir.

Felipe, ao contrrio de Sandro, estava mais calmo. O rompimento com Joyce, que tudo indicava definitivo, fizera-o pensar apenas na corrida. J na pista de treinos,
arrancara aplausos do tio e de Tuta. Estava motivado, decidido e frio. Chegou at a garantir na mesa do almoo:
 Esta ganho, tio.
        Minha preocupao  com a pista. O Rato a conhece, voc no.
 Alm dessa, tem outra vantagem:  mais experiente admitiu Felipe.  Foi seu trunfo na corrida de Campinas. Mas se no der nenhum problema na mquina, ganho. Sinto
isso aqui dentro  disse, batendo no peito.
 Eu tambm sinto que vai ganhar!  exclamou Lola. Tenho tanta certeza que fecho a casa e vou com vocs. Quero v-lo l em cima, no pdio!
 E comemoraremos em Ribeiro Preto, tomando o melhor chope do Pas!  prometeu Clvis, comeando a embarcar naquela onda de entusiasmo.

Parece que isso de ter f, acreditar, ir com tudo, enfrentar a luta do jeito que ela vem, d certo mesmo. Garra e confiana no so apenas palavras: decidem. Mas
se for assim na vida, no dia-a-dia, como ser nas pistas? Consideraes e perguntas que Felipe fazia l do degrau mais alto. Estava no pdio.
Rato subira ao segundo degrau apenas por um instante. E enquanto o terceiro colocado cumprimentava Felipe, confraternizando-se, Rato dizia a uma emissora de rdio
local que perdera a liderana da prova por culpa do motor, que rateara. Mas no fazia mal: tendo chegado em primeiro numa corrida e em segundo noutra, j estava
na ponta do campeonato. Depois da entrevista, evaporou.
 Viu a cara do Rato?  Tuta perguntou a Felipe, entre um abrao e outro do pblico.
 No deu pra ver, ficou de lado, no pdio. Que cara fez?
        Cara-de-pau  respondeu o mecnico.  Como se estivesse aqui a passeio.
Depois foram todos  maior choperia da cidade, famosa no Pas, Felipe ainda cumprimentado e abraado.
O jornalista que previra como maior atrao do campeonato o pega entre o Rato e Felipe, de copo de chope na mo, confirmava:
 Eu no dizia? Um vence uma, outro vence outra. Como ambos perderam a primeira corrida, e so sete, pode at dar empate. Esse campeonato ser o mais quente, do
ano, anotem.
Depois da vitria, no lugar de festejar como os tios e Tuta faziam, falando com todos que se aproximavam da mesa, Felipe mostrava-se um tanto indiferente, calado,
olhando sem ver, distante.
Lola, ligando seu aparelho de raio X, perguntou:
 Saudade de Dbora?
 De quem?
 De Dbora.
 Ah, sim, claro.
Mais tarde, Lola foi chamada ao telefone. Quem a chamaria se no conhecia ningum na cidade? Voltou algum tempo depois e curvou-se sobre Felipe, com novidade.
 Sabe quem ? Joy. Localizou a gente aqui. Quer dar uma palavrinha a voc.
Felipe ia saltar da cadeira, mas se deteve.
 Diga que no quero falar com ela.
 Apenas uma palavrinha, F. Ela est ansiosa.
 J disse, tia. No quero.  E erguendo a voz:  Eh, garom! Mais um copo.
Lola voltou ao telefone e muito sem jeito repetiu o que Felipe mandara. Ento ouviu um soluo e um breve rudo metlico.
A comemorao prolongou-se at o comeo da madrugada, mas Felipe no se integrou na festa. Permaneceu  margem, como se a vitria no tivesse sido sua. Apertar
a mo e retribuir os abraos dos que chegavam parecia trabalho, obrigao. Mesmo se o Rato estivesse ali, no se abalaria. O dio era um sentimento pequeno demais
perto daquilo que estava sentindo.


35.

QUARTA CORRIDA

 Eu moro aqui, Felipe.
O rapaz olhou deslumbrado para o casaro, velho, mas imponente, classudo. A frente, um largo porto e jardins. Parecia que se respirava melhor atrs daqueles muros.
Felipe jamais entrara numa residncia assim, senhorial.
Uma empregada uniformizada apareceu para abrir a porta. Por dentro a casa causava ainda melhor impresso, muito espaosa, atapetada e mobiliada com mveis pesados,
escuros, de aspecto solene. Era como Felipe imaginava uma manso, freqentemente descritas, com detalhes, nos romances antigos.
 Que beleza a sua casa!  exclamou Felipe, mas sem se sentir  vontade. A grandeza e o luxo o inibiam.
Dbora percebeu.
 Est nervoso?
 Acho que sim. Seus pais so camaradas?
 Meu pai ! Um amigo! Infelizmente est viajando. Voc iria gostar dele.
 E sua me?  perguntou Felipe, vendo a empregada uniformizada entrar com uma bandeja de sucos e refrigerantes.
A resposta no foi imediata; exigia palavras mais pensadas.
 No  m pessoa, mas...  um tanto orgulhosa, dessas que gostam de impor sua opinio. E como  nervosa! No h remdio que d resultado.
Esse carto de visita deixou Felipe ainda mais inquieto. Tomou trs copos em seguida.
Afinal, uma mulher loura, alta e majestosa, entrou na sala, pisando firme, a ponto de fazer tremer os cristais.
 Onde tem andado, Dbora?  A voz, tambm volumosa, encheu a sala.
 Fui  faculdade e depois ao clube.
 Voc no pra em casa, menina. Culpa de seu pai que nunca chama sua ateno.  um banana!
Dbora replicou:
 Ora, mame, papai  uma doura!
  um banana, eu disse.
Felipe, constrangido, encostou-se na parede da sala.
 Mame, queria lhe apresentar um amigo meu.
A me de Dbora no tomou conhecimento do visitante, sempre a andar pela sala, a pisar duro, muito irritada.
 Vou proibir voc de ir ao clube  ela decidiu.  E no a quero mais nessa tal danceteria.
Dbora, que diminua perto da me, como se a temesse, insistiu ainda:
 Mame, esse  o Felipe.
Afinal a opulenta senhora descobriu que havia mais algum na sala e cravou os olhos no rapaz. Felipe quase se esconde atrs de uma coluna.
 Voc  amigo de minha filha?  trovejou.
 Sou, sim, senhora.
  mesmo?
 Sou.
 Ento vai me fazer um favor. Diga a ela para se afastar das lanchonetes, do clube, da danceteria e para no ir mais a essas pistas de motocross. Quero que um dia
se case com um moo de nossa posio, bem-posto na vida, formado, e no com um qualquer, como esses que freqentam esses lugares. Voc me faz esse grande favor,
moo?

Olhando para cima, para aquela mulher alta, num ambiente estranho para ele, Felipe apenas respondeu:
 Fao.
 Vou lhe agradecer muito, pois no posso contar com o pai dela, que  indiscutivelmente um banana. Posso contar com voc?
 Pode, minha senhora.
 Quer um refrigerante?
 Obrigado, j tomei. Agora preciso ir. Muito prazer em conhec-la, dona.
Felipe tomou o rumo da saida acompanhado por Dbora, que baixara a cabea, perdida. Ao chegar ao jardim, ela continuava despersonalizada, com vontade de sumir num
buraco que se abrisse no cho.
 F, me perdoe. Saiu tudo errado.
 No se aborrea, Dbora, a vida tem dessas coisas.
 Eu devia ter dito que voc  meu namorado.
Felipe discordou.
 Fez bem em no dizer. Teria sido ainda pior. Depois, quer saber? Acho que sua me tem razo. Voc deve obedec-la. Ser muito mais feliz.
Dbora no quis que aquilo fosse uma separao, doa.
 No vamos nos ver mais, Felipe?
Embora sentindo que a moa sofria mais que ele, preferiu ser taxativo:
 Isto  um adeus, Dbora. Quem sabe um dia nos encontremos no futuro e vamos rir muito do que aconteceu hoje. O tempo  engraado, e faz dessas coisas.
Dbora ia chorar, mas contraiu o rosto e segurou as lgrimas. Que garota maravilhosa! Disse apenas mais uma frase:
 Mame exagerou. Papai no  um banana.
 Tchau, Dbora!
Felipe voltou para casa a p, queria andar. L chegando, muito s, telefonou para a me, no interior.
 Como vai, me? E a mana, est boa?
 Aqui estamos bem  ela respondeu.  Como est indo nos estudos?
 Sem problemas. A senhora sabe que sempre fui bom aluno. Telefonei apenas para mandar um beijo. Encoste o rosto no bocal. A vai ele.  E disparou a beijoca.
Depois do telefonema, Felipe foi para o quarto. Lola logo apareceu.
 J de volta da casa de Dbora?
 J.
 Que tal a me dela?
 tima!
 Ento est tudo certinho?
Felipe abraou a tia, sua confidente, e disse sem drama:
 Acabou, dona Lola. Foi muito bacana, mas chegou ao fim. Mas numa boa. Nem briga nem grilo. Civilizadamente.

No h curvas nem obstculos para as notcias  elas voam. Logo se soube no Vago que o namoro entre Felipe e Dbora acabara definitivamente. Uma conhecida de Joyce,
vendo-a na danceteria, contou-lhe a novidade.
 Dizem at que Dbora vai estudar na Europa. Quem pode pode.
No podia haver melhor novidade para Joyce.
 Verdade mesmo?
 Se duvida, veja.
Joyce viu Felipe num canto do salo, sozinho. No agentou. Foi ao seu encontro. Ao v-la, vindo em sua direo, os sentidos do rapaz se acenderam. Teria coragem
de repeli-la? No. Faria as pazes naquele momento, se dependesse dele. Ia gritar Joy!, quando uma figura de couro preto, o Rato, apareceu entre as mesas. Joyce
parou, ainda a olhar para Felipe com insistncia.
 Se olhar mais um pouco para o escoteirinho leva uma bolacha  ameaou Sandro.
Joyce no era medrosa, tinha fibra, mas continuava temendo por Felipe. Dia a dia convencia-se de que o Rato, muito mais que simples brigo, era perigoso. E aquela
histria do rapaz que, surrado por ele, vivia numa cadeira de rodas, segundo certas informaes, parecia verdadeira. No podia expor Felipe a igual desastre.
Mas tanto Felipe quanto Rato no permaneceram muito tempo no Vago aquela noite, presos  mesma preocupao: a quarta corrida do campeonato, em Curitiba.

Curitiba. Tudo aquilo outra vez: bales, flmulas, dsticos, rocks, sanduches, refrigerantes e poeira. Durante a prova, derrapagens, trombadas, quedas, motores
estourados.
Felipe concluiu a prova coberto de lama. Jamais sua moto escorregara tanto. Quis ir logo ao hotel tomar um grande banho. Mal saiu do banheiro, ouviu o telefone.
Atendeu.
 F?
 Tia Lola!
Ela no pudera viajar e estava ansiosa pelo resultado.
 Sabe quem est aqui ao meu lado?
 Quem?
 Joyce. Veio me visitar.
Felipe fez uma pausa. Poderia falar com ela em outras circunstncias, mas no dava. Teve de forar a voz para dizer:
 Ento lhe d uma boa notcia: Rato ganhou. Fiquei em segundo.
Lola insistiu:
 Ela quer falar com voc...
 S depois de ela ter acabado com o Rato. Antes, no. Tchau, tia. E desligou o telefone. Um instante depois, j estava arrependido.
Ento Felipe ouviu da rua rudos de festa. Foi espiar  janela. Era um f-clube de Sandro, que, carregando-o em triunfo, comemorava sua vitria.

36.

QUINTA CORRIDA

J
oyce fora visitar Lola porque l ficaria conhecendo o resultado da corrida e porque tinham muito que conversar. A tia de Felipe levou um choque: no a esperava.
 A senhora deve estar pensando mal de mim  comeou.  Mas no tenho toda a culpa do que est acontecendo.
 No a culpo de nada. Voc gosta de Sandro e isso explica tudo.
Joyce no fora at l para mentir.
 Eu no gosto de Sandro. Pelo contrrio, odeio esse cara.
 Odeia? Mas voc gostou dele a princpio, no?
Parecia difcil explicar. s vezes as coisas acontecem e a gente nem sabe como.
 Muito antes de conhecer Felipe eu j ouvia falar de Sandro e ele me chamava a ateno nas pistas. Para mim e minhas amigas era um dolo que estava surgindo. Acompanhvamos
sua carreira. Quando ele me procurou, me senti dividida entre Felipe, de quem j gostava, e Sandro com aquele cartaz todo. E a o cime de Felipe, sua falta de
tato, estragou tudo. Ento aconteceu aquela briga, no Vago, que nos separou de uma vez. Mas logo que comecei a namorar com o Rato, e depois que Dbora apareceu,
descobri que era o F que eu amava.
O tom era de sinceridade. Lola acreditou. Quantas vezes as pessoas se enganam sobre seus prprios sentimentos! Lembrou-se de sua mocidade e do muito que hesitara
para aceitar Clvis como namorado. Quase o trocara por outro.
 No precisa dizer mais nada, Joy. Eu entendo. Depois no se pode confiar muito em amores  primeira vista, como se deu entre F e voc. Mas agora, que j sabe
de quem gosta de verdade, que se decidiu, nada mais fcil.
Era a o obstculo a saltar.
 Eu no posso deixar Sandro.
 Por que no? Isso desagradaria sua me?
 No, Lola  disse Joy.  Minha me mal conhece Sandro. Ele esteve em casa uma nica vez. O motivo  outro.
 Qual?
Joyce fez uma longa pausa antes do desabafo.
 Se eu der um basta em Sandro, ele se vinga em F. No  uma suposio. Ele mesmo me disse isso. Vive ameaando. L no interior, bateu tanto num moo, que ainda
hoje est em uma cadeira de rodas.
  verdade isso?  espantou-se Lola.
 Ele prprio me contou. Teve de fugir da cidade. Mas depois se meteu em outras complicaes. Sempre por violncia.  um delinqente.
Lola entendeu e concluiu por ela:
 E voc teme que, se abandon-lo, ele possa desforrar-se em Felipe. Por isso est se sacrificando. Joy,  muita nobreza de sua parte! Voc possui um belo corao!
Sua situao  mesmo delicada.
 No sei o que fazer  ela confessou, baixando a cabea.
 E o pior, minha filha,  que no posso ajud-la com um conselho. Se voc romper com o Rato, e ele ferir meu sobrinho, como  que vou me sentir? Penso naquele moo
na cadeira de rodas...
Joyce ergueu a cabea.
 Vim apenas para lhe contar o que acontece. Sei que estou num beco sem sada. S me resta rezar.
Lola abraou Joyce e ficaram as duas em silncio. Aquele era um n que s o destino saberia desatar. Mas o destino nem sempre tem boa vontade com as pessoas.

O dono da academia divertia-se vendo Felipe esmurrar o saco de areia. Parecia uma briga com um inimigo invisvel. Invisvel, nada. O saco devia pesar uns cem quilos.
 Use a esquerda, use a esquerda  advertiu.  A gente nasceu com dois braos. E mexa-se um pouco, flexibilidade...
Para mostrar que assimilara as lies, Felipe pegou a corda e fez uma exibio. Brincadeira de criana que os pugilistas levam a srio. O ex-campeo, no satisfeito,
tomou a corda e mostrou o que sabia. Era um espetculo  parte.
 Nem se v a corda!
O professor interrompeu a prtica bruscamente e devolveu a corda a Felipe.
 Passe a raiva para as pernas. Comece.
Em casa, Felipe no resistiu e perguntou  tia:
 Ento ela esteve aqui?
 Joy? Esteve.
 Ficou contente com a vitria do Rato?
 No brinque, F. Ela ama voc de verdade!
 Mas vai continuar com o cara, no? Por qu? Ela nem sabe de quem gosta.  como muitas que andam por a. Faz de conta que no perguntei nada, tia.
Lola reagiu, porm no podia contar nada.
 Sou mulher e nessas coisas no me engano. Se ela no se decide por voc  porque tem um motivo forte.
Felipe, irritado:
 E ela lhe disse que motivo  esse?
Que vontade de dizer!
 No.
Felipe foi para a oficina; estava na hora de treinar com Clvis e Tuta. Lola ficou sozinha sem saber o que fazer com a confisso de Joyce. Talvez j sofresse tanto
quanto ela. Pensou em aconselhar-se com o marido. Mas ele estava demasiadamente concentrado na prxima corrida, em Campos do Jordo. Se Felipe perdesse mais essa,
sua situao se complicaria no campeonato.

 O que eu disse est acontecendo  garantia o comentarista de cross, durante a quinta prova.  Todos os participantes no passam de figurantes. O pega  entre
Rato e Felipe!
Um popular, que estava por perto, perguntou:
  verdade que eles tambm no se entendem fora das pistas?
 O que dizem  que gostam da mesma garota. Uma belezoca, por sinal! Da um principiante como Felipe render tanto assim. O que ele est fazendo na pista no est
no gibi.

Felipe esguichava o champanha no pdio, sob os flashes das mquinas fotogrficas dos reprteres. No foco de todas, ele, o vencedor, e Rato, o segundo colocado. Enquanto
isso, Clvis comentava com Tuta:
 Tudo igual, agora. Os dois com o mesmo nmero de pontos. J pensou na briga que vai haver nessas duas corridas que faltam?
 Nem quero pensar  disse Tuta.  Se penso, meu corao dispara.




37.

SEXTA CORRIDA (penltima)

Lola decidiu-se. No quarto, para ningum ouvir, contou a Clvis tudo o que Joyce lhe dissera, na semana passada, sobre ela, Felipe e o Rato. Por mais que amenizasse
a histria, o contedo continuou dramtico. O marido ouviu atento, sem perder uma palavra.
 O que devo fazer, Clvis? Dizer a F que o Rato prometeu acabar com ele?
 Eu no seu lugar...  comeou Clvis.
 Espere. Tem de ser uma resoluo conjunta, nossa. S falarei o que ficar combinado aqui.
Clvis ps-se a andar pelo quarto, olhando para o cho, como se  procura de uma resposta. Abriu a janela e olhou o cu. Mas tambm no encontrou nada.
 Se contarmos o caso a Felipe, ele vai querer tomar uma atitude. E qualquer coisa que fizesse seria um rsco. O Rato um sujeitinho perigoso e, como Joy disse,
j se meteu em boas. Comenta-se isso na associao. Alm do mais, Felipe est sob nossa responsabilidade. No pode acontecer nenhum mal a ele enquanto mora conosco.
O raciocnio de Clvis levava a uma s concluso:
 Ento no devemos lhe dizer nada?
Clvis tinha mais a dizer:
 No, ainda, Lola. Os nimos andam tensos demais por causa do campeonato. Vamos deixar que as coisas se encaixem naturalmente. Por outro lado, se eu me meter nesse
caso, abertamente, diro que minha inteno  prejudicar o Rato no Fora Livre.
No surgira soluo, mas fizera bem a Lola confidenciar-se com o marido. Abraou-o.
 Tenho muita pena de Joy e receio que o Rato acabe aprontando alguma para ela.
  meu receio tambm  admitiu Clvis.

A derrota na quinta prova ps o Rato mal-humorado. Quando se encontrou com Joyce, no dia seguinte, estava um tanto desarvorado. Foi logo dizendo:
 Acho que o escoteirinho est metido em macumba. Tem pai-de-santo a. Eu j estava com a corrida ganha, quando o motor pipocou. Mandinga. Mas temos mais duas pela
frente. Agora vamos ter o nosso papo, Joyce.
 Que papo?
 Ora, do noivado!  exclamou o Rato.  Tenho falado disso nas entrevistas. Um pouco de publicidade sempre ajuda um craque. Vamos badalar, como os atores da tev,
quando ficam noivos ou se amarram.
 O que voc quer que eu diga?
 Precisamos marcar a data. O que diz de ficarmos de anelo no dedo no dia em que eu ganhar o campeonato?
Joyce no podia perder essa:
 E se no ganhar?
 Feche essa boca, garota! Ganho, sim.
Ela repetiu a dose de veneno:
 Voc pode perder, no pode?
Rato segurou-a fortemente pelo brao.
  isso que voc quer?
 Largue! Est me machucando!
 Quero que no se esquea do que prometi sobre o escoteirinho. Se voc der mancada, quem paga  ele. No embarque numa furada, que se arrepende depois. Quanto ao
noivado vai ser no dia do campeonato. E avise a veterana, dona Selma, para ir pensando nos doces.
Joyce quis protestar, quis dizer que no ficaria noiva dele, que o detestava, mas novamente a ameaa que recaa sobre Felipe a calou. Quando voltou para seu apartamento,
abatida, dona Selma logo imaginou que algo se passava.
 Brigou com o namorado?
 Sandro no  meu namorado. O que sinto por ele  dio!  gritou.
 Dessa no sabia  espantou-se dona Selma.  Ele disse outro dia no rdio que vocs vo ficar noivos!
 Isso pode at ser verdade  replicou Joyce.  Mas nada me impede de odi-lo.
Dona Selma, confusa, lembrou um fato.
 Pensei que estivesse aborrecida com aquele rapaz, com quem discutiu outro dia, a, diante do elevador. O mocinho que veio aqui, outro dia.
 Felipe?! Esse sim, eu amo  disse Joyce.
 Enxotou-o daqui e o ama?
 Enxotei-o e o amo  confirmou Joyce com naturalidade.
Dona Selma sacudiu a cabea.
 Estou ficando velha demais. No entendo a mocidade de hoje. Namora quem odeia e expulsa o moo que ama. Faz sentido?
Joyce teve de concordar com ela.
 , no faz nenhum sentido.

Felipe vivia dias agitados. No perodo da manh fazia o cursinho. Depois, passava na academia para esmurrar o saco de areia e pular corda. Em seguida, almoava e
partia com Clvis e Tuta para a pista de treinos.  noite, ou descansava, ou ia ao Vago, mas apenas para espiar. No danava, ficava em uma das mesas, tomando
refrigerantes. s vezes, Dbora se aproximava, porm no demonstrava interesse. Joyce no aparecia mais, sinal de que Rato, aps a ltima derrota, andava de moral
baixo, recolhido, sem gs. No entanto, mesmo acompanhada pelo seu grande inimigo, Felipe gostaria de v-la no Vago. A o sofrimento teria um gosto, enquanto a
ausncia era s o vazio. O jeito foi lembrar-se das exibies de rock que os dois haviam feito na pista. Que barato!
Contudo, nem isso  lembrar  Felipe pde fazer. Um chato, que conhecia s de ol, sentou-se em sua mesa e blablablou:
 Soube da Joy e do Rato? Vo ficar noivos no dia do encerramento do campeonato. Ele promete uma festa dupla.
  capaz de guardar um segredo?  perguntou Felipe.
 Chute.
 Ele no vai ganhar o campeonato  disse Felipe em seu ouvido, indo depois ao bar, pagar a conta.

Bauru, cenrio da sexta prova.
Tuta tratava da moto, preocupado.
 O que h?  perguntou-lhe Felipe, nos boxes.
 Uma pecinha marota...
 No d para trocar?  quis saber o piloto, aflito.
 Est faltando no estoque de reposio. Mas no encuque, F. Acho que ela vai suportar o tranco. Corra como se tudo estivesse perfeitinho. O homem l de cima
 apontou para o cu  vai ajudar.
Lola entrou nos boxes e abraou o sobrinho. timo. Felipe achava que ela dava sorte.
A sada foi um tanto embaraada, mas Felipe ganhou logo a ponta. Na dcima volta, perdeu a liderana para o Rato, porm, na mesma, recuperou-a. Estava confiante
no resultado, ouvindo a farra da galera, quando um toc-toc anunciou problema. Em seguida, o acelerador falhava. Viu algumas motos passarem. Subitamente, o motor
pegou outra vez. Mas no foi longe. Voltou a falhar, fazendo um barulho esquisito.
A boca seca, desesperado, Felipe foi empurrando a mquina at os boxes, j vendo Clvis e Tuta correrem ao seu encontro.
 Vamos dar um jeito nisso  disse Tuta.
 No vai dar  replicou Felipe.  Voltaria em ltimo lugar.
No mesmo instante, o locutor anunciava:
 Rato assume a liderana! Agora ningum lhe tira esta.
Felipe no quis ouvir nem ver nada. Mesmo se dessem um jeito na moto, no voltaria  pista. A corrida estava perdida. Foi se afastando dos boxes na direo do estacionamento
de carros. Na prxima e ltima corrida, mesmo vencendo, no ganharia o caneco, caso o Rato marcasse pontos nesta. Largou-se no paralama da caminhonete de Clvis,
ouvindo os motores e a voz esganiada do locutor. Tapou os ouvidos com as mos espalmadas. Sua dor exigia silncio.
Felipe perdeu a noo do tempo e s deu por si ao ver Clvis, Tuta e Lola correndo em sua direo, a agitarem os braos. Clvis foi o primeiro a falar:
 Levante da, garoto.
 Me deixem, estou arrasado.
 Seu santo  forte  disse Tuta rindo.  Deus vai com sua cara.
Clvis, Tuta e Lola riam e ele nada entendia. Deveria rir tambm? No era hiena.
 A motoca do Rato quebrou na penltima volta  informou o tio.  Ele tambm no marcou pontos.
  verdade ou gozao?  perguntou Felipe, no acreditando.
 Tudo igual outra vez  disse Tuta.  Esto empatados.
Felipe olhou para Lola:
 Aconteceu isso mesmo, tia?
Ela abraou-o.
 Voc teve uma baita sorte, F! A deciso ficou para a final, em So Paulo.
S ento Felipe comeou a rir e a abraar a turma. Era a melhor notcia desde que comeara o campeonato. Mas no sabia o que dizer. Estava empolgado demais.
 Isso no merece uma comemorao?  perguntou Clvis.
 Mas s merece!  exclamou Tuta.  J estou doido por uma cervejola. De acordo?
 Vamos nessa, Tuta  disse Clvis.
O resto do dia foi uma festa s, tendo como palco um restaurante repleto de fs do cross. O Rato, porm, no apareceu por l, Mas, no final, Felipe j estava preocupado.
 Ser que a mquina no vai dar mancada domingo?
 Temos uma semana para nos preocupar com ela disse Clvis.  Agora coma e beba. A felicidade  isso, uma coisa toda feita de instantes. Vamos aproveit-los.


38

STIMA CORRIDA (a ltima)

Na segunda-feira, depois do cursinho e dos socos na academia, Felipe foi para casa descansar. No haveria treinos porque Clvis e Tuta estariam consertando a moto,
Largara-se na cama, a pensar na vida, quando a porta se abriu e uma miragem entrou.
 Joyce!
Como estava linda!
 Vim fazer uma visita rpida. Sei de tudo que aconteceu ontem. Minhas rezas funcionaram  garantiu a moa, aproximando-se da cama.
Embora estivesse noutro mundo, transportado pela surpresa, Felipe tentou pr os ps no cho:
 Voc rompeu com o Rato?
Era ela dizer sim e ele desceria do cu em pra-quedas.
 Esquea o Rato, por favor  ela pediu num fio de voz.
 No posso esquecer: voc j o deixou?
Joyce no fora at l para mentir.
 No, F.
 Por qu, se no gosta dele?
 Vamos mudar de assunto  ela suplicou.  Falemos de voc. Est confiante para a prova de domingo?
Felipe levantou-se da cama, rejeitando o dilogo.
 Se continua com ele, o que adianta conversar?
A moa deu alguns passos na direo da porta, depois voltou-se e deu um inesperado beijo no rosto de Felipe. Mas, sem clima para uma cena amorosa, deixou o quarto
precipitadamente.
Momentos mais tarde, era tia Lola que entrava.
 Gostou da visita?
 No  respondeu Felipe.
 Que gelo, F!  exclamou a tia.  Essa moa gosta demais de voc! Ela mesma confessa.
 Talvez goste de mim e dele ao mesmo tempo.
Clvis e Tuta apareceram  porta, sorridentes e sujos de graxa.
 A mquina j est no ponto  disse o tio.  Trocamos a pea quebrada e outras que j estavam gastas. Amanh, depois dos treinos, faremos os ajustes.
 Obrigado  agradeceu Felipe.  Isso  o que interessa. Mas no era verdade. Seu maior interesse era outro.

O resto da semana, Felipe concentrou-se nos treinos, com a moto acertadinha, rendendo o mximo. Clvis e Tuta entendiam mesmo do babado. Na quinta, aproveitando
um feriado, sem aulas, passou mais tempo na academia.
O ex-pugilista, vendo Felipe castigar o saco de areia como nunca, perguntou:
 Como  o cara?
 Mais alto que eu, dois anos mais velho e cheio de manha.
 Olha, se houver atrito, esmurre logo a mandbula. Todo mundo tem queixo de vidro. J que ele  mais forte, ataque primeiro. Um no queixo, outro no estmago. Mas
brigue em lugar pblico, com gente perto, pois logo chega a turma do deixa-disso e segura.
 Certo, campeo.
No Vago, Felipe encontrou um ambiente tenso. Amigos do Rato passavam, sorriam e diziam piadinhas. O jornalista especializado estava l.
 O Rato continua espalhando que fica noivo no domingo. Voc confirma?
 Pergunte pra moa. Ela  que deve saber. Felipe aprendera que corridas se decidem nas pistas. Esnobar os adversrios no adiantava. s vezes uma pecinha quebra
e todo o oba-oba vai para o brejo. Muitas vezes naquela noite foi cercado para adiantar previses. Recusava-se.
 No sou adivinho nem Mandrake. Domingo a gente v o que d para fazer.
O Rato, porm, no procedia assim. Entrevistado por duas estaes de rdio, em programas esportivos, no deixou por menos.
 Vai ser um passeio  garantiu.  Se eu e o escoteirinho chegamos  ltima prova empatados, foi porque a mquina deu problema em algumas corridas. Mas agora ela
est afinadinha e com fora total.
 E tudo bem com a gata?  perguntou o radialista.
 Ela vai estar na primeira fila da galera pra ver meu desfile  disse.  De vestido novo e anelo no dedo. Alis, espero que todos compaream ao Vago, na noite
de domingo, onde vou lustrar o meu trofu.
Felipe ouviu as declaraes no seu transstor, mas no abriu a boca. Era melhor que o piloto guardasse toda sua marra para o domingo.
No sbado, um telefonema do interior.
 F, como voc est?
 Eu estou bem, me. Ontem ganhei uma bela nota em geografia.
 O que eu quero saber, filho,  se voc est confiante na corrida. O pessoal daqui est planejando uma homenagem a voc, caso ganhe o campeonato.
 Agradea por mim, mas no posso prometer.
 Sua irm e o cunhado esto mandando uma fora.
 Vai ajudar, espero.
 Felicidades, filho.  o que a cidade toda est desejando tambm.
Farei o possvel para no decepcionar aquela gente, pensou Felipe. E daquele momento em diante passou a viver sobre rodas.

A ltima prova do campeonato Fora Livre atraiu imenso pblico e horas antes da largada a festa j comeara. O zepelim estava l, no espao, como um charuto metlico,
a refletir a luz solar. Embaixo, aquele excesso de cores e formas festivas. O Satellite Five comparecera quentssimo e nos boxes a movimentao superava longe a
das corridas anteriores.
Felipe, parado, s olhava. O tio preocupou-se.
 Algum grilo?
 Estou legal. Essa onda toda  que mexe um pouco com a gente.
Tuta passou-lhe uma dica:
 Vi Joy na arquibancada. Est no apogeu.
 Quero saber s da moto, Tuta.
 Enxutinha. No tem mosquito. Vai fundo.
Em certo momento, Felipe percebeu que pousavam nele um olhar de fazer lagartixa cair da parede. Era o Rato, com seu bluso de couro marchetado, a lhe desejar o pior.
Fez figa e saiu de perto. Ento, o diretor da prova deu o aviso: todos na pista com suas motos.
As vinte mquinas tomaram posio. Lola atirou um beijo para Felipe, na primeira fila com o Rato. Este, at os ltimos momentos, dava autgrafos aos fs e empertigava-se.
O starting-gate. Trs minutos. Dois minutos. Ateno: um minuto. Estou frio, pensou. Melhor frio que nervoso. Em que parte da arquibancada estaria... Dada a partida.
J???
Os afobadinhos saltaram na frente e fizeram um caixote. Felipe no gostou. Se um daqueles caretes casse em sua linha, no daria para pular fora. Precisava escapar
da entalada sem atropelos. Quando viu uma brecha acelerou e deixou uns trs na rabeira. Mas ainda no avanara muito. Um cuca-fresca, diante de sua moto, ziguezagueava,
travando-o. Precisou esperar uma volta para ultrapass-lo numa curva em aclive. Os bolhas iam ficando. J devia estar no primeiro peloto. Logo ouviu o locutor:
 Rato j disputa a liderana com Gregrio, que no quer ceder!
O maior buraco da pista. Saltava ou contornava? Pode ser que Joy no chute o Rato por medo dele, pensou. E l foi ele. Grande pulo! O pblico aplaudiu. Nesse
lance, mais um concorrente ficou. Uma costela-de-vaca. No teve medo. Era s dar uma de jquei, mos firmes e corpo mole. Mas Joy no era medrosa. Tinha personalidade
para esbanjar. A no ser... Algum, que largara  sua frente, exagerou numa curva fechada e afocinhou. Mais uma posio conquistada. Agora, sim, o terreno comeava
a limpar. Lembrou-se de uma frase do tio Clvis: finja que  uma corrida comum, mas pelo amor de Deus, no esquea que no . J podia dar tudo e pr o excesso
de cautela de lado. Nesse embalo, passou por outro competidor no justo momento em que o locutor anunciava:
 Felipe Mota agora  o quarto. Haver o grande pega entre ele e o Rato? Vocs no perdem por esperar.

Felipe j no pensava, no fazia clculos, no se preocupava com o pblico  corria. Mais uma volta e passou a ocupar a terceira colocao, vendo o segundo colocado
preocupado  sua frente, tentando fechar-lhe a passagem em ziguezagues. Pior que isso eram os retardatrios, uma volta atrs, que j eram alcanados. Teve de ultrapassar
vrios. Mas foi sorte! O segundo colocado atrapalhou-se mais que ele, com o trnsito, perdeu o pique, e enquanto esforava-se para impedir-lhe a passagem  direita,
Felipe arrancou pela esquerda, ganhou a posio e agora s o Rato  sua frente.
Era o que o pblico queria ver: Felipe e Rato disputando a liderana nas duas ltimas voltas. Agenta corao! A galera toda levantou-se numa frentica torcida.
O rock, mais forte, acelerava o ritmo da competio, que o locutor, envolvido, j no conseguia descrever.
O Rato corria com os olhos no retrovisor: havia uma fera atrs dele. No desespero, sua moto piruetou e perdeu espao. O escoteirinho era sua sombra. Uma costela-de-vaca.
Sem pena dos pneus, Felipe avanou aos pinotes, faturando mais alguns metros a seu favor. Olhou de lado: quem est a! Estavam emparelhados.
Centenas de espectadores correram para a cerca da pista. Ningum queria perder nada. Lola abraou-se a Clvis. Tuta colocou-se na linha de chegada. E onde estava
Joy naquela confuso toda?
O ltimo king-kong: Felipe e Rato saltaram juntos. Bom para Rato, que retomou a dianteira. Mas o refresco foi curto. Na prxima curva, fechadssima, Felipe primeiro
emparelhou, depois passou. Rato, no conformado, reagiu e retomou a liderana. Agora era ora um ora outro que aparecia na ponta.
 Quem vencer? Quem vencer?  gritava o locutor. Finalzinho! A chegada era logo ali. Cem metros? Menos.
Felipe e Rato vinham juntos, quase imperceptveis sob o mundo de papis coloridos, que rodopiavam no espao e confundiam a viso geral. Mas um deles, por culpa do
piloto ou da mquina, subitamente ficava para trs no momento decisivo. E sem tempo e cho para recuperar-se, enquanto o vencedor, sob a chuva de papis que se intensificava,
cruzava a chegada, totalmente curvado sobre a moto.
 Quem venceu? O Rato?  perguntava Lola, agora perdida no meio do pblico.
Era uma pergunta ansiosa que muitos faziam, at que o locutor de pista anunciou:
 Felipe Mota venceu a prova e o campeonato Fora Livre de Motocross!!!
Felipe viu o tio e Tuta diante dele.
 Fui bem, homem gordo?
 Voc foi genial!  bradou Clvis.
 Uma corrida de mestre!  exclamou Tuta, abraando-o.
Logo em seguida aparecia Lola com o rosto molhado de lgrimas.
 F! Voc  o mximo!
Felipe quis dar uma espiada na cara do Rato, mas foi arrastado para o pdio. Rodeado pelo grande pblico, que o aplaudia, subiu ao degrau mais alto. Abaixo estava
Roberto, nmero 11, que ficara com a terceira colocao. E o Rato?
Os organizadores tambm procuravam pelo segundo colocado, mas nada de ele aparecer.

Rato localizou Joyce na arquibancada.
 Vamos.
 Quero ficar aqui  disse ela.
Sem dizer uma palavra, Sandro pegou-a pela mo e foi praticamente arrastando-a at o estacionamento de carros. Joy protestava, inutilmente. Chegando, ele abriu
a porta de seu carro e ordenou:
 Entre.
 No quero entrar.
Rato empurrou-a com fora, entrou no carro e deu a partida. A moa no se resignou, reagindo.
 Para onde est me levando?
 A um lugar onde possamos conversar.
 Conversar sobre o qu?  perguntou Joyce.
 Sobre nosso noivado. J comprei as alianas.
 No vai haver noivado algum  disse Joyce.  Pode brecar o carro.
Rato renovou a velha ameaa:
 Ento pode imaginar o jeito que vou deixar o escoteirinho. Outro para a cadeira de rodas.
 Isso j no me assusta, Sandro. Felipe saber se defender. Breque.
Rato parou o carro e Joyce desceu. Mas ele desceu tambm e foi andando na direo dela.
 O que vai fazer?  perguntou Joyce, um tanto apavorada. A vingana ia recair sobre ela.  Sandro! Est doido?

Depois de descer do pdio, evitando os cumprimentos e abraos, Felipe saiu  procura de Joyce, mas no a encontrou em nenhuma parte. Tia Lola surgiu ao seu lado.
 Acho que est na hora de saber tudo, F...
 Sobre Joy e o Rato?
 Sim. Joyce no rompia o namoro porque Rato fazia ameaa. Dizia que, se ela o abandonasse, se vingaria em voc.  uma boa moa e no queria que isso acontecesse.
Felipe entendeu.
 Durante a prova imaginei qualquer coisa assim. Mas onde deve estar agora?
 Aposto que ela vai aparecer hoje no Vago. Vamos nos reunir l para comemorar.  E em outro tom:  Agora faa uma cara alegre para os fs. Esto assanhados.

Campainha. A me de Joyce abriu a porta e deu um recuo.
 Que  isso, minha filha? Est machucada?
 Estou, me. Um pouquinho. Mas apesar disso nunca me senti melhor.
Para dona Selma isso no explicava nada.
 Quem a feriu no rosto?
 O Rato.
 Rato?
 Mas tudo bem!  disse Joyce abraando a me.  As coisas vo voltar ao normal.
Dona Selma balanou a cabea.
 Um estpido machuca voc e diz que est tudo bem...
Joyce beijou-a.
 Quem  mesmo que escreve direito por linhas tortas?


39.

Era uma noite especial no Vago. Numa mesa de centro, Felipe, Lota, Clvis e Tuta comemoravam a vitria do campeonato, comendo e bebendo, o campeo a todo instante
interrompido pelos admiradores que chegavam. O jornalista especializado fora um dos primeiros a aparecer.
 Voc vai longe, moo  disse.
 Ainda no decidi at onde  respondeu Felipe.
Dbora tambm chegou para um pl, acompanhada dum moo muito distinto, provavelmente de agrado da me dela.
 F... estou to satisfeita com o campeonato. Este  o Patrick.
Mais tarde, Tuta apontou para a pista:
 Veja quem est l, F!
Era o Rato, danando com uma garota, alegro, descontraido, como se fosse ele o ganhador do trofu. Felipe ficou intrigado: que proeza fizera para festejar assim?
Eu, no lugar dele, desaparecia do Vago para sempre. O que comemorava?
A resposta veio logo sobre suas prprias pernas. Algum tocou no brao de F.
 Joy? Tia Lota me contou tudo. Voc tem um grande corao. Mas o que tem no rosto? Tire os culos.
Joyce hesitou, mas tirou os culos, enormes, que usara para encobrir um ferimento.
 O que foi, Joy?  perguntou Lota.
 Nada.
 Levou algum tombo?  quis saber CLvis.
 Levei, isto ...
Felipe quis saber a histria toda.
 Conte, Joy. Algum bateu em voc?
Sob os olhares de todos, Joyce confessou:
 Foi o Rato. Mas agora tudo acabou. Ele vai nos deixar em paz, F. Esqueam.
Felipe ergueu-se e dirigiu-se  pista de dana. Rato e a garota danavam.
 Com licena  pediu Felipe  garota, que largou o par.
Em seguida, como se quisesse fazer um furo no mundo, Felipe deu um soco no Rato, sem saber se acertara o queixo ou no. Sandro foi arremessado de encontro a uma
mesa, fazendo cair pratos, copos e garrafas. No d tempo para o adversrio se recuperar, aconselhara o ex-pugilista. Felipe correu para ele e esmurrou-o outra
vez. Rato caiu, mas se levantou num salto, como se suas pernas fossem um par de molas. Um-dois: bombardeou-o Felipe. A gente nasce com dois braos, pra que lutar
com um s?
 Seu escoteirinho...  murmurou o Rato, ensaiando uma ginga.
Vendo que o Rato se dispunha a atacar, Felipe soltou o corpo e abaixou, quando o outro largou a primeira bomba. A essa altura, o pessoal todo do Vago aproximava-se,
atrado pelo espetculo extra. No era o dia de sorte de Sandro, que errou o segundo petardo e ficou meio desequilibrado. Felipe contra-atacou: pam-pam.
 Onde ele aprendeu a lutar assim?  perguntava Clvis a Tuta.
Acertado e recuando, ainda surpreso, Rato aterrissou sobre outra mesa, exposto aos socos de Felipe. Covardemente, tentou apanhar uma garrafa, que ia arremessar,
quando os do deixa-disso o seguraram, dominaram e, esbravejando, xingando, esperneando, foi expulso do salo.
Quando voltou  mesa, Felipe sentiu-se agarrado por uma criatura muito mais suave: Joy.
 F, voc esteve formidvel!
 Ele merecia um castigo, no?
Clvis acenou ao gerente.
 A despesa do quebra-quebra  minha! Ponha tudo na minha conta. Pago com prazer!
Tuta no cabia em si de satisfao.
 Puxa! Voc lutou como um boxeador!
 Andei tomando umas aulinhas, Tuta! Lembra do ferimento na minha mo? Saco de areia!
O rock, que havia sido interrompido na baguna, recomeou. Os pares sairam para danar.
Joyce abraou o namorado:
 Vamos nessa, F? Mas nada de show. Quero danar coladinha.
Clvis, Lota e luta, sorrindo, como se posassem para uma foto, unidos, ficaram a ver os dois danarem.

 Formam um belo par!  comentou Lota.
O trofu conquistado por Felipe ficou em lugar de destaque na sala de jantar da casa dos tios. Quem visitasse a famlia, logo ouviria de Clvis ou de Lota:
 Veja o caneco que F ganhou. Um luxo, no?
Qualquer rapaz ficaria muito orgulhoso, mas Felipe no. Parecia estar com a cabea longe das pistas.
 O Rato foi expulso da associao por causa da agresso contra Joy  informou Clvis.  E como j aprontara outras, a coisa ficou feia. Dizem que pegou sua moto
e se mandou.
Felipe no comentou nada. Joyce, que estava perto, tambm no disse nada. Rato j era o passado.
 Podemos inscrever voc no campeonato estadual  disse Tuta,
 E por que no logo no nacional?  corrigiu Clvis, muito otimista em relao a tudo, desde domingo.
Observando bem o campeo, abraado a Joy, Lota ponderou:
 O prprio F  quem deve decidir.
Felipe sorriu; ela sempre penetrava no seu l dentro. O tal de sexto sentido das mulheres?
 No estou pensando em participar de campeonatos disse Felipe.  As emoes que senti, aposto que jamais se repetiriam. Acho at que no sou um corredor, tudo
foi uma teima.
 O que est dizendo?  perguntou Tuta.  No  o qu?
 Agora vou me preparar para outro campeonato, que tem muito mais obstculos, muito mais curvas e surpresas e do qual participa um nmero infinitamente maior de
concorrentes.
Tuta franziu a testa. Tinha os tmpanos afetados, devido ao rudo dos motores, e geralmente no entendia bem.
 Que campeonato  esse?  perguntou.
 O campeonato da vida!  respondeu o homem gordo, dando partida a uma gargalhada geral.  Entendeu, surdo? E nesse h corridas todos os dias...
Ainda a rir, Felipe e Joy saram para a rua, abraados. Embora sem a faixa de campeo, sem o trofu, annimo pedestre, ele sentia-se o rei do mundo e o dono do futuro.
Joy, vibrando de felicidade, depois de tanta dor e ansiedade, exclamou:
 Oh, F... como seria bom se este dia nunca acabasse!





Embora a histria que voc leu seja toda emoo, h nela um ensinamento que vale a pena guardar.  quentssimo:
Felipe:         J sei tudo (...)
Clvis:         No diga isso, F. A gente nunca chega a saber tudo de coisa alguma. At a morte, estamos sempre aprendendo.


Marcos Rey
